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Alimentação no tratamento da obesidade

Quem tenta emagrecer costuma procurar o alimento certo, o chá, o jejum, a lista do que cortar. O que a ciência mostra é outra coisa: o que decide é o padrão do prato, sobretudo quanto ele sacia. É isso que o endocrinologista ajuda a montar, junto com exames que dizem de onde o peso vem.

Ilustração em tinta sobre papel de um saco de salgadinho, uma balança e um prato com peixe e verduras
O pacote pronto e o prato de comida de verdade podem ter as mesmas calorias no rótulo. O corpo não reage igual aos dois. Ilustração esquemática.

O que é

Alimentação é a base de qualquer tratamento da obesidade, com ou sem medicamento, com ou sem cirurgia. Mas a ideia de que existe um alimento que emagrece, ou um que engorda sozinho, não se sustenta. O que emagrece é comer menos energia do que se gasta por tempo suficiente, e o que torna isso possível sem sofrimento é um padrão de comida que sacia com menos calorias.

Dois estudos ajudam a entender. Em 2019, o grupo de Kevin Hall, nos Estados Unidos, internou 20 adultos por quatro semanas. Durante duas semanas eles receberam um cardápio feito de alimentos ultraprocessados e, nas outras duas, um cardápio de alimentos minimamente processados. Os dois cardápios foram montados com as mesmas calorias, o mesmo açúcar, a mesma gordura, a mesma fibra e o mesmo sal, e as pessoas podiam comer à vontade. Na fase ultraprocessada, elas comeram cerca de 500 calorias a mais por dia e ganharam, em média, 0,9 kg em duas semanas. Na fase minimamente processada, perderam a mesma quantidade. Mesmo rótulo, resultado oposto: o que mudou foi a comida em si, quanto ela enche e a velocidade com que é comida.

O segundo dado é sobre proteína. A revisão de Leidy e colaboradores, de 2015, reuniu os estudos sobre dietas com mais proteína, na faixa de 1,2 a 1,6 gramas por quilo de peso por dia, distribuída entre as refeições. Esse padrão aumenta a saciedade, ajuda a preservar a massa muscular enquanto a gordura cai e facilita manter o peso depois.

O que isso vira no prato

Não é uma lista de proibidos. É um jeito de montar a refeição:

  • uma fonte de proteína em toda refeição (ovo, carne, frango, peixe, leguminosas, laticínios);
  • fibra, na forma de verduras, legumes, frutas inteiras e grãos pouco refinados;
  • comida que precisa ser mastigada, porque o tempo de mastigação faz parte do sinal de saciedade;
  • água como bebida principal;
  • menos líquido calórico (refrigerante, suco, bebida alcoólica, café adoçado);
  • menos pacote, isto é, menos alimento pronto para comer que saiu de uma fábrica.

Os mitos cabem em uma frase cada. Chá não seca gordura. Limão em jejum não acelera nada. Cortar carboidrato de vez funciona para alguns, não é regra, e o que sai da dieta à força tende a voltar. Fruta não engorda. Jantar não engorda: o que conta é o total do dia. Comer de três em três horas não acelera o metabolismo; o gasto para digerir é proporcional ao que se come, não ao número de vezes. Há mais sobre isso no artigo o que comer para emagrecer.

Quem precisa de avaliação

Quem tem excesso de peso e já tentou emagrecer por conta própria, quem emagrece e reganha, quem come pouco e mesmo assim não perde, e quem tem doença associada ao peso (diabetes, pressão alta, gordura no fígado, apneia do sono, colesterol alto). Em todas essas situações, alimentação prescrita sem exames é palpite.

Como se investiga

Antes de mudar o prato, é preciso saber de onde o peso vem e o que ele já está causando.

A bioimpedância separa o peso em gordura, massa magra e água. Duas pessoas com o mesmo peso podem ter quantidades muito diferentes de músculo, e isso muda a meta de proteína e o tipo de exercício. A medida da cintura estima a gordura dentro do abdome, a que mais se associa a diabetes e doença do coração.

No sangue, a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada mostram se já existe pré-diabetes ou diabetes, o que muda a escolha de medicamentos. O perfil de lipídios (colesterol total, LDL, HDL e triglicérides) mede o risco cardiovascular. O TSH avalia a tireoide: hipotireoidismo raramente explica obesidade, mas precisa ser afastado. Conforme o caso, entram enzimas do fígado, insulina, ácido úrico e vitamina D.

A conversa é tão exame quanto o sangue. A história alimentar (o que come, quando, com quem, o que acontece à noite, se há compulsão), a história do sono (dormir pouco aumenta a fome no dia seguinte) e a lista de remédios em uso, porque alguns antidepressivos, antipsicóticos, corticoides e tratamentos para diabetes fazem ganhar peso e podem ser trocados.

O tratamento

O plano alimentar é individual. Parte do que a pessoa já come, do horário de trabalho, de quem cozinha em casa e do que ela consegue sustentar, e não de um cardápio pronto. Os princípios são os de cima: proteína em toda refeição, fibra, comida de verdade, água, menos pacote. A atividade física entra junto desde o início, porque é ela que protege o músculo enquanto a gordura cai; a página sobre perder gordura e ganhar músculo detalha essa parte.

Quando a comida não basta, e em muitos casos não basta, o medicamento ou a cirurgia entram junto com o plano alimentar, não no lugar dele. Obesidade é doença com componente biológico: o corpo defende o peso que tinha, aumentando a fome e reduzindo o gasto quando se perde gordura. Dizer que falta força de vontade ignora isso. Os medicamentos atuais reduzem a fome e tornam o padrão alimentar mais fácil de manter; a cirurgia bariátrica faz o mesmo em outra escala. Nos dois casos, quem volta a comer mal recupera o peso.

Quando indicado, o trabalho é feito junto com nutricionista, que detalha o plano no dia a dia e acompanha mais de perto.

Como é o acompanhamento no consultório

O Dr. Lucas repete a bioimpedância a cada retorno. O ajuste do plano é feito pelo que o músculo e a gordura fizeram, não só pela balança: perder peso às custas de músculo é um resultado ruim mesmo que o número caia. Se a massa magra está caindo, sobe a proteína e revisa-se o exercício. Se a gordura não cai, revisa-se o plano e, quando é o caso, entra ou se ajusta medicamento. Os exames de sangue são repetidos conforme o que havia de alterado.

Cada pessoa tem uma história alimentar diferente, e o plano que funciona é o que foi desenhado para ela. Uma avaliação individual é o ponto de partida.

Perguntas frequentes

Existe uma dieta que funciona mais que as outras?

Quando se comparam dietas com a mesma quantidade de calorias, a perda de gordura é parecida. O que diferencia uma da outra é quanto cada pessoa consegue seguir sem fome. Para a maioria, isso passa por proteína, fibra e menos ultraprocessado, mas a divisão entre carboidrato e gordura pode variar com a preferência.

Preciso cortar carboidrato?

Não como regra. Reduzir açúcar, refrigerante e farinha refinada ajuda quase todo mundo; tirar arroz, feijão, fruta e pão integral de vez raramente é necessário e costuma ser abandonado. Em quem tem diabetes, a quantidade e o tipo de carboidrato são ajustados com mais cuidado.

Se eu tomar remédio para emagrecer, ainda preciso cuidar da comida?

Sim. O medicamento reduz a fome; o que se come com menos fome continua decidindo o resultado e, principalmente, quanto músculo se preserva. Quem usa medicamento sem proteína suficiente e sem exercício perde massa magra e tende a reganhar quando para.

Fontes

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