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Queda de cabelo, a avaliação endócrina

Perder entre 50 e 100 fios por dia é normal. Quando a queda passa disso, a pergunta certa não é qual vitamina tomar, mas o que está faltando ou sobrando no corpo. A avaliação endócrina existe para responder isso com exame, não com palpite.

Ilustração em tinta sobre papel de um folículo de pelo entre a glândula tireoide e um tubo de sangue
O folículo depende do hormônio da tireoide e do que circula no sangue, como ferro, vitaminas e hormônios. Por isso a queda de cabelo é tão frequente nos problemas endócrinos. Ilustração esquemática.

O que é

O cabelo cresce em ciclos: cada fio passa anos crescendo, descansa por alguns meses e cai para dar lugar a um novo. Como os fios estão em fases diferentes, perder 50 a 100 por dia é normal.

A queda que preocupa é diferente. A forma mais comum é o eflúvio telógeno: uma quantidade grande de fios entra ao mesmo tempo na fase de descanso e cai de forma difusa, pela cabeça inteira, dois a três meses depois de um gatilho. Os gatilhos clássicos são febre alta, cirurgia, parto, dieta brusca, estresse intenso e remédio novo. Quando o gatilho passa, a queda costuma resolver em até seis meses.

Mas o gatilho nem sempre é um evento isolado. Muitas vezes é uma condição que continua agindo: a tireoide que trabalha devagar, o ferro que não repõe, o hormônio masculino em excesso. É aí que entra a avaliação endócrina.

Quem precisa de avaliação

Queda que dura mais de alguns meses, sem gatilho claro ou com outros sinais, merece investigação. As causas que o endocrinologista procura:

  • Tireoide. Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo alteram o ciclo do fio. No hipotireoidismo, o cabelo fica seco, fino e cai de forma difusa, muitas vezes junto com cansaço, frio e pele seca.
  • Ferro. A ferritina baixa, que é a reserva de ferro do corpo, derruba cabelo mesmo sem anemia. É uma das causas mais frequentes em mulheres com menstruação abundante.
  • Hormônios masculinos na mulher. Cabelo rareando no alto da cabeça, com pelo no queixo ou no buço, acne persistente ou menstruação irregular, aponta para excesso de androgênio, quase sempre pela síndrome dos ovários policísticos.
  • Emagrecimento rápido e remédios para emagrecer. Perder peso depressa é um gatilho clássico. Nos estudos da tirzepatida, cerca de 5% dos participantes relataram queda de cabelo, contra cerca de 1% no grupo placebo. A queda acompanha a velocidade da perda e a falta de proteína.
  • Desnutrição e dieta restritiva. Pouca proteína, pouca caloria e cirurgia bariátrica sem suplementação adequada deixam o folículo sem matéria-prima.
  • Doença autoimune. Tireoidite de Hashimoto, doença celíaca e outras condições autoimunes podem causar queda difusa antes de qualquer outro sintoma.

Alguns sinais direcionam: unhas frágeis, aftas de repetição, perda de peso rápida e remédios que derrubam cabelo, como anticoagulantes, retinoides, betabloqueadores e anticonvulsivantes.

Como se investiga

A conversa vem primeiro: quando começou, o que aconteceu dois a três meses antes, o padrão da queda, o que mudou na alimentação, no peso e nos remédios. Depois vêm os exames, e a lista é longa de propósito, porque pedir só ferritina e TSH deixa passar causas.

  • Perfil de ferro completo. Ferritina, ferro sérico, saturação de transferrina e hemograma. A ferritina sozinha engana: ela sobe em qualquer inflamação ou gordura no fígado, e um valor "normal" pode esconder falta de ferro. A saturação de transferrina mostra quanto ferro está disponível para os tecidos, e o hemograma diz se a falta já virou anemia.
  • Vitamina B12, ácido fólico e homocisteína. As duas vitaminas participam da divisão celular, intensa no folículo. A homocisteína alta denuncia falta tecidual de B12 ou de folato mesmo com a dosagem das vitaminas na faixa limítrofe.
  • Vitamina D. A deficiência é comum e está associada a queda difusa e a alguns tipos de queda em áreas.
  • TSH, T4 livre e anti-TPO. O TSH é o hormônio que comanda a tireoide, e o T4 livre é o que ela produz. O anti-TPO é o anticorpo da tireoidite autoimune e pode estar positivo anos antes de o TSH sair da faixa, o que muda o acompanhamento. Mais em hipotireoidismo.
  • Testosterona total e livre, SDHEA e 17-hidroxiprogesterona. Entram quando há sinal de androgênio na mulher. A testosterona é mais confiável pelo método de espectrometria de massas, o SDHEA reflete a produção das adrenais e a 17-hidroxiprogesterona rastreia a hiperplasia adrenal congênita. A investigação completa está em excesso de hormônios masculinos na mulher.
  • Zinco. Quando a dieta é pobre ou há má absorção, como em doença intestinal ou cirurgia bariátrica. A deficiência causa queda, unhas fracas e alteração do paladar.
  • Anti-transglutaminase. Anticorpo da doença celíaca. Pedido quando há pista: ferro que não sobe com reposição, diarreia, distensão, aftas ou doença autoimune da tireoide.
  • Proteína total e albumina. Em dieta restrita, emagrecimento rápido e pós-bariátrica. O fio é feito de proteína, e sem ingestão suficiente a produção para.

O tratamento

O tratamento é tratar a causa. Cabelo que cai por hipotireoidismo volta com a tireoide corrigida; o que cai por falta de ferro, com a reserva reposta; o que cai por excesso de androgênio responde ao tratamento hormonal; o que cai por emagrecimento rápido pede ajuste da velocidade e proteína suficiente.

A suplementação é direcionada: as vitaminas e os minerais que o exame mostrou que faltam, nas formas e nas quantidades que a deficiência pede, com controle de exame para confirmar que subiu. Cápsula genérica "para cabelo" não faz isso: repõe o que não falta, muitas vezes em quantidade insuficiente do que falta, e atrasa o diagnóstico. Há ainda um risco pouco conhecido: a biotina em dose alta, presente em muitos desses produtos, interfere em exames de laboratório e pode falsear o TSH, o T4 livre e até a troponina, usada no diagnóstico de infarto.

O dermatologista entra, junto ou no lugar do endocrinologista, quando há falhas redondas, descamação, coceira, áreas com cicatriz ou queda que não melhora em seis meses apesar da causa corrigida. A ordem de investigar está em queda de cabelo: o que investigar antes de suplementar.

Como é o acompanhamento no consultório

O Dr. Lucas começa pela história, pelo exame do couro cabeludo e das unhas e pela lista de exames acima, ajustada ao que a conversa sugere. Quando há perda de peso em curso, a bioimpedância mede se a massa muscular está sendo preservada, porque a mesma falta de proteína que derruba cabelo derruba músculo.

A reavaliação acontece em três a seis meses, com os exames repetidos, porque o ciclo do fio é lento e o exame mostra que a correção está funcionando antes de o espelho mostrar. Quando o padrão da queda ou a falta de resposta indica doença do couro cabeludo, o trabalho segue junto com o dermatologista.

Cada queda tem uma combinação própria de causas, e o plano nasce dos resultados. A avaliação individual é o começo.

Perguntas frequentes

Posso começar um suplemento para cabelo enquanto espero os exames?

O ideal é esperar. O suplemento pode mascarar uma deficiência real, repor o que não falta e, no caso da biotina em dose alta, alterar os exames de tireoide. O exame vem primeiro e a reposição vem do resultado.

Minha ferritina está "normal" e ainda assim o cabelo cai. Pode ser ferro?

Pode. Ferritina normal em quem tem inflamação ou gordura no fígado não garante reserva de ferro, e para o folículo o valor que importa fica acima do limite mínimo do laboratório. A saturação de transferrina e o hemograma completam a resposta.

Emagreci com medicamento e o cabelo começou a cair. Devo parar o tratamento?

Não por conta própria. A queda por emagrecimento rápido é um eflúvio telógeno, costuma ser temporária e responde ao ajuste da velocidade da perda, à proteína na alimentação e à reposição do que o exame mostrar. Quem decide o que mudar é o médico que acompanha.

Fontes

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