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Cabelo caindo: o que investigar antes de tomar vitamina
Perder até 100 fios por dia é normal. Quando passa disso, a resposta raramente está num frasco de biotina. Tireoide, ferritina, androgênios e emagrecimento rápido são as causas que o endocrinologista procura, e cada uma pede um exame antes de qualquer suplemento.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
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- 7 min
- Fontes
- 6 referências

"Por que meu cabelo não para de cair?" costuma ser digitado depois de um banho em que o ralo entupiu, e a primeira resposta que aparece é um anúncio de vitamina para cabelo. O caminho mais curto, e quase sempre o errado, é comprar o frasco. A queda de cabelo no adulto é um sinal, não uma doença. Antes de suplementar, vale saber o que procurar.
Quanto cair é normal
Cada fio passa por um ciclo: uma fase longa de crescimento, uma curta de transição e uma de repouso, chamada telógena, ao fim da qual o fio cai e outro nasce no lugar. Num couro cabeludo saudável isso significa perder de 50 a 100 fios por dia. Assusta na escova, mas é renovação normal.
O problema é quando uma parcela muito maior de fios entra em repouso ao mesmo tempo. Esse quadro tem nome: eflúvio telógeno. A queda é difusa, pelo couro cabeludo inteiro, sem falhas em áreas definidas, e começa de 2 a 3 meses depois de um gatilho: febre alta, cirurgia, parto, dieta muito restrita, estresse intenso, início ou troca de um remédio. O intervalo confunde: a pessoa já esqueceu a virose quando o cabelo começa a cair. A boa notícia é que, passado o gatilho, o eflúvio costuma se resolver sozinho em até 6 meses (Malkud, 2015).
Quando não há gatilho claro, ou a queda não para, é hora de investigar. Na endocrinologia, as causas que mais aparecem são quatro.
Tireoide: o fio fica fino, seco e ralo
Tanto o hipotireoidismo, em que a glândula produz pouco hormônio, quanto o hipertireoidismo, em que produz demais, alteram o ciclo do cabelo. O fio afina, fica seco e quebradiço, e a queda é difusa. Muitas vezes vem com cansaço, peso que muda sem explicação e pele seca.
O tratamento da tireoide recupera o cabelo, mas devagar. A diretriz da American Thyroid Association (Associação Americana de Tireoide) lembra que a normalização dos hormônios vem meses antes da resposta visível no cabelo, porque o fio precisa completar um novo ciclo (Jonklaas, 2014).
Ferro: ferritina baixa, mesmo sem anemia
O ferro participa da divisão das células do folículo capilar, uma das mais rápidas do corpo, e o folículo é dos primeiros a sentir quando a reserva cai. Por isso a ferritina, que mede o estoque de ferro, pode estar baixa com hemograma normal, e esse quadro está associado à queda de cabelo (Trost, 2006).
É frequente em mulheres em idade fértil, pelo fluxo menstrual, e em quem fez dieta restritiva ou cirurgia bariátrica. O ponto decisivo: repor ferro só faz sentido com exame. Em excesso, ele não ajuda o cabelo e sobrecarrega o fígado.
Androgênios na mulher: o padrão conta
Quando o cabelo rareia no topo da cabeça e na linha frontal, e isso vem com pelos grossos no queixo ou no buço, acne persistente ou menstruação irregular, a suspeita muda. Esse padrão aponta para excesso de androgênios, os hormônios masculinos que a mulher também produz. A diretriz da Endocrine Society (Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos) orienta dosar testosterona e outros androgênios sempre que há sinais de excesso (Martin, 2018). Aqui a vitamina não resolve porque não falta nada.
Emagrecimento rápido: a dieta e o remédio
O corpo lê a perda de peso acelerada como estresse, e o cabelo responde como responderia a uma cirurgia. Dieta muito restrita é gatilho clássico de eflúvio telógeno.
Os medicamentos para emagrecer entram no mesmo raciocínio. No ensaio da tirzepatida para obesidade, o SURMOUNT-1, a queda de cabelo foi relatada por cerca de 5% de quem usou o medicamento, contra cerca de 1% no placebo (Jastreboff, 2022). Em geral a causa é a velocidade da perda de peso, e o quadro tende a se estabilizar junto com o peso. Não é motivo para parar por conta própria, mas é motivo para avisar quem prescreveu e conferir ferritina e tireoide.
O que pedir antes de suplementar
A investigação laboratorial é a parte que separa suplementar no escuro de tratar uma causa. O que eu peço:
- Perfil de ferro completo: ferritina, ferro sérico, saturação de transferrina e hemograma. Ferritina sozinha engana quando há inflamação, e a anemia é o estágio final de uma falta de ferro que já estava derrubando cabelo.
- Vitamina B12, ácido fólico e homocisteína. A homocisteína alta é um sinal indireto de que B12 ou folato estão faltando no tecido, mesmo quando a dosagem no sangue parece aceitável.
- Vitamina D.
- TSH, T4 livre e anti-TPO. O anticorpo flagra a tireoidite autoimune (Hashimoto), que pode derrubar cabelo antes de o TSH sair da faixa.
- Testosterona e outros androgênios, quando há pelo no queixo, acne ou cabelo rareando no topo.
- Zinco, quando a dieta é pobre ou há má absorção.
E o que eu olho além do exame: sinais de desnutrição (perda de peso rápida, dieta muito restrita, cirurgia bariátrica, unhas frágeis, aftas de repetição), pistas de doença autoimune (tireoidite, doença celíaca, anemia por falta de B12 de causa autoimune), proteína suficiente na alimentação e remédios que derrubam cabelo, como anticoagulante, retinoide, betabloqueador e anticonvulsivante.
Suplemento para cabelo ajuda, sim, quando é direcionado: as vitaminas e as doses que o exame mostrou que faltam, no tempo certo, com reavaliação. O que não ajuda é a cápsula genérica, que repõe o que não falta e deixa passar o que falta. E biotina em dose alta interfere em exames de laboratório, entre eles os de tireoide e a troponina, usada para diagnosticar infarto. Quem toma biotina precisa avisar antes de colher sangue.
Quando o dermatologista entra junto
Há padrões que pedem o dermatologista desde o início: falhas redondas e bem delimitadas, descamação, vermelhidão ou coceira no couro cabeludo, áreas com cicatriz onde o fio não nasce mais. E, mesmo na queda difusa, se os exames vieram normais e o quadro não melhorou em 6 meses, o dermatologista precisa olhar o couro cabeludo de perto. Os dois especialistas trabalham melhor juntos.
O que isso muda na consulta
Eu recebo muita gente que já tomou biotina, colágeno e polivitamínico por meses e continua perdendo cabelo. Quase nunca o problema era o suplemento que faltava; era o exame que não foi pedido. Na primeira consulta eu reconstruo a linha do tempo, porque a queda de hoje costuma ter um gatilho de três meses atrás, e peço os exames que respondem às quatro causas acima. Em boa parte dos casos a resposta aparece num TSH ou numa ferritina. Cada pessoa tem uma combinação própria de história, exames e remédios em uso, e é isso que define a investigação.
Perguntas frequentes
Biotina faz o cabelo crescer?
Só quando há deficiência de biotina, o que é raro no adulto com alimentação comum. Nos demais casos não há prova de que ajude, e em dose alta ela interfere em exames de tireoide e de troponina, com risco de resultado falso. Quem toma precisa avisar o laboratório.
Meu hemograma está normal. Ainda pode ser falta de ferro?
Pode. A ferritina mede o estoque de ferro e costuma cair antes de a hemoglobina baixar. A queda de cabelo está associada à ferritina baixa mesmo sem anemia. Por isso o pedido inclui os dois exames.
Comecei um remédio para emagrecer e o cabelo começou a cair. Devo parar?
Não por conta própria. A queda nesse contexto costuma vir da velocidade da perda de peso, não do medicamento em si, e tende a se estabilizar junto com o peso. Vale avisar quem prescreveu e conferir ferritina e tireoide.
Fontes
- Almohanna HM, Ahmed AA, Tsatalis JP, Tosti A. The Role of Vitamins and Minerals in Hair Loss: A Review. Dermatology and Therapy, 2019.
- Malkud S. Telogen Effluvium: A Review. Journal of Clinical and Diagnostic Research, 2015.
- Trost LB, Bergfeld WF, Calogeras E. The diagnosis and treatment of iron deficiency and its potential relationship to hair loss. Journal of the American Academy of Dermatology, 2006.
- Jonklaas J, et al. Guidelines for the Treatment of Hypothyroidism: American Thyroid Association. Thyroid, 2014.
- Martin KA, et al. Evaluation and Treatment of Hirsutism in Premenopausal Women: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2018.
- Jastreboff AM, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). New England Journal of Medicine, 2022.