Anabolizantes: efeitos, riscos e recuperação
A maioria das pessoas que usa anabolizantes não compete em nada. Usa para o espelho, por indicação de alguém da academia, e chega ao consultório anos depois com acne, infertilidade, colesterol alterado ou um ecocardiograma que assustou. Esta página explica o que esses hormônios fazem, o que a ciência mediu e como a endocrinologia cuida de quem usou.

O que são anabolizantes e quem usa
Esteroides anabolizantes androgênicos são a testosterona e seus derivados sintéticos, usados em doses muito acima do que o corpo produz, com o objetivo de ganhar músculo e mudar a aparência. Estima-se que cerca de 3% das pessoas no mundo usem em algum momento da vida, com frequência maior em homens e bem maior entre frequentadores de academia e fisiculturistas amadores.
O dado que mais surpreende é outro: cerca de 80% dos usuários não são atletas competitivos. São pessoas interessadas em estética, não em desempenho, e uma parcela desenvolve dependência, com anos de exposição.
Efeitos dos anabolizantes no homem e na mulher
No homem, o hormônio externo desliga o comando da hipófise sobre os testículos. O resultado é atrofia testicular, queda da produção de espermatozoides e infertilidade, que pode durar meses ou anos depois da suspensão. Parte da testosterona extra vira estrogênio e provoca ginecomastia, o crescimento das mamas. Acne, queda de cabelo, elevação da pressão arterial e aumento dos glóbulos vermelhos são frequentes. Entre ex-usuários, queda do desejo sexual, disfunção erétil e depressão são as queixas mais comuns.
Na mulher, os efeitos são de virilização: engrossamento da voz, pelos no rosto e no corpo, aumento do clitóris, redução das mamas, queda de cabelo, acne e interrupção da menstruação. A voz, os pelos e o aumento do clitóris costumam ser irreversíveis mesmo depois de parar.
Em ambos, os derivados orais são tóxicos para o fígado e podem causar colestase, cistos de sangue e tumores hepáticos. Os rins podem desenvolver cicatrização dos glomérulos e doença renal crônica. Agressividade, ansiedade, oscilações de humor e dependência completam o quadro descrito na declaração científica da Endocrine Society de 2014.
Anabolizante faz mal ao coração?
A testosterona em excesso eleva o colesterol LDL, derruba o HDL, aumenta a pressão, altera a coagulação, provoca espasmo dos vasos e lesa diretamente a célula do músculo cardíaco. Em 2017, Baggish e colaboradores mostraram na revista Circulation que usuários de longo prazo tinham a função de bombeamento do ventrículo esquerdo reduzida, as paredes do coração mais espessas e mais placa nas coronárias do que não usuários.
Em 2025, a mesma revista publicou o maior estudo prospectivo até agora: 1.189 homens dinamarqueses com histórico de uso, acompanhados por 11 anos em média e comparados com quase 60 mil homens da população geral da mesma idade. O risco de infarto foi 3 vezes maior; o de cardiomiopatia, quase 9 vezes; o de insuficiência cardíaca, 3,6 vezes; o de arritmia, 2,3 vezes; e o de trombose venosa, 2,4 vezes. Dois pontos práticos vieram da atualização apresentada no congresso brasileiro de endocrinologia de 2025: o risco é cumulativo ao longo da vida, e exames normais hoje não isentam de risco futuro. Não existe dose segura quando o uso é feito sem indicação clínica.
Exames e avaliação de quem usou anabolizante
A consulta começa com quatro perguntas, propostas por Anawalt em 2019: a pessoa quer de fato parar? O que a levou a essa decisão? Há quanto tempo usa? Em que esquema, com quais substâncias e intervalos? As respostas definem o plano.
Os exames cobrem fígado (transaminases, fosfatase alcalina, ultrassom), rins (creatinina, ureia, taxa de filtração), lipídios, hemograma, pressão arterial, hormônios (testosterona, LH, FSH, estradiol, prolactina; na mulher, também TSH, DHEA-S e teste de gravidez) e, quando há desejo de fertilidade, espermograma repetido. O ecocardiograma, se possível com medida de strain, é parte da avaliação de quem usou por tempo prolongado; prova de esforço, Holter e escore de cálcio entram conforme o caso, junto com a cardiologia.
Parar de usar anabolizante: recuperação do eixo hormonal
Depois da suspensão, o eixo hipotálamo-hipófise-testículos leva meses para voltar a funcionar, às vezes mais de um ano. Nesse período o homem fica com testosterona baixa, cansaço, perda de desejo e humor deprimido, e é aí que muitos voltam a usar. O acompanhamento serve para atravessar essa fase.
Quando há desejo de fertilidade e o eixo não se recupera sozinho, a endocrinologia pode usar, sob supervisão, a gonadotrofina coriônica (hCG), que estimula diretamente o testículo, ou o clomifeno, que reativa o comando da hipófise. Os dois são usos fora de bula, exigem exames mensais e têm efeitos adversos próprios. O que não existe é a "terapia pós-ciclo" feita por conta própria, com medicamentos sem receita e esquemas de fórum: ela mascara exames, atrasa a recuperação e expõe a riscos adicionais.
Acompanhamento médico sem prescrever anabolizantes
O Conselho Federal de Medicina e a Anvisa vedam a prescrição de anabolizantes para fins estéticos ou de desempenho. Este consultório não prescreve, não ajusta nem orienta uso. O que ele faz é tratar a pessoa que usou ou usa, sem julgamento: avaliar os danos, acompanhar a recuperação, cuidar da fertilidade, encaminhar o coração e oferecer uma saída.
Perguntas frequentes
Parei de usar e minha testosterona está baixa. Preciso repor?
Em geral, não. A testosterona baixa logo depois da suspensão é a hipófise ainda desligada, e repor hormônio externo adia a recuperação. O acompanhamento mede a volta do eixo ao longo dos meses e intervém só quando ela não acontece ou quando há urgência de fertilidade.
Meus exames estão normais. Então não houve dano?
Exames normais hoje não excluem risco futuro. O dano cardiovascular é cumulativo e pode aparecer anos depois. Quem usou por tempo prolongado precisa de ecocardiograma e acompanhamento, mesmo sem sintoma.
Os efeitos na mulher voltam ao normal?
Parte deles. Menstruação, acne e redução das mamas tendem a se recuperar. A voz grossa, os pelos e o aumento do clitóris costumam ser permanentes, por isso a suspensão precoce faz tanta diferença.
A avaliação de quem usou anabolizantes é individual e passa pela consulta.
Fontes
- Windfeld-Mathiasen J, Heerfordt IM, Dalhoff KP, et al. Cardiovascular disease in anabolic androgenic steroid users. Circulation, 2025.
- Baggish AL, Weiner RB, Kanayama G, et al. Cardiovascular toxicity of illicit anabolic-androgenic steroid use. Circulation, 2017.
- Anawalt BD. Diagnosis and management of anabolic androgenic steroid use. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2019.
- Pope HG, Wood RI, Rogol A, Nyberg F, Bowers L, Bhasin S. Adverse health consequences of performance-enhancing drugs: an Endocrine Society scientific statement. Endocrine Reviews, 2014.