Nódulo na adrenal descoberto por acaso (incidentaloma)
Uma tomografia pedida por outro motivo mostra um nódulo na glândula adrenal. A notícia assusta, mas na grande maioria das vezes é um achado benigno. O que não pode faltar é uma avaliação bem feita, uma única vez, que responda se o nódulo tem risco de câncer e se produz hormônio em excesso.

O que é
As adrenais são duas glândulas pequenas, uma sobre cada rim, que produzem cortisol, aldosterona, hormônios masculinos e adrenalina. Incidentaloma adrenal é um nódulo encontrado nessas glândulas por acaso, num exame de imagem feito por outro motivo: uma tomografia do abdome por dor, uma ressonância da coluna, um exame de estadiamento de outra doença.
É um achado comum, e fica mais comum com a idade. Aparece em cerca de 4% das pessoas de meia-idade e em até 10% depois dos 60 anos. É mais frequente em quem tem obesidade, diabetes ou hipertensão. Em cerca de 20% dos casos, há nódulos nas duas adrenais.
A grande maioria, entre 80% e 85%, é um adenoma, um tumor benigno do córtex da glândula. Mas uma minoria produz hormônio em excesso, e uma minoria ainda menor é maligna. A investigação existe para separar esses grupos.
As duas perguntas
Toda avaliação de incidentaloma responde, em paralelo, duas perguntas: o nódulo tem risco de ser maligno, e o nódulo produz hormônio em excesso. A primeira é respondida pela imagem; a segunda, por exames de sangue e urina. Nenhum paciente com nódulo adrenal deveria sair da consulta sem as duas respostas.
A imagem responde a primeira
O exame de escolha é a tomografia sem contraste, com cortes finos, que mede a densidade do nódulo em unidades Hounsfield. Adenomas são ricos em gordura e têm densidade baixa: um nódulo homogêneo com densidade de até 10 unidades é, com segurança, benigno, qualquer que seja o tamanho, e não precisa de nova imagem. A ressonância com protocolo para adrenais é uma alternativa equivalente quando há alergia ao contraste ou se quer evitar radiação.
Nódulos com densidade mais alta, heterogêneos ou maiores que 4 cm exigem mais: uma tomografia com medida do clareamento do contraste, uma ressonância ou um PET-CT, e discussão em equipe. Carcinoma do córtex adrenal é raro (menos de 5% dos incidentalomas), mas costuma ser grande, irregular, com densidade mista e crescimento rápido. Um ponto que as diretrizes repetem: biópsia do nódulo é contraindicada quando há suspeita de carcinoma, porque não muda a conduta e pode espalhar o tumor.
Os hormônios respondem a segunda
Três exames cobrem a maior parte dos casos:
- Teste de supressão com dexametasona. A pessoa toma uma dose baixa de dexametasona à noite e dosa o cortisol pela manhã. Numa adrenal normal, o cortisol cai quase a zero. Se não cai, o nódulo está produzindo cortisol por conta própria. Quando isso acontece sem os sinais clássicos da síndrome de Cushing, chama-se secreção autônoma leve de cortisol (MACS, da sigla em inglês), presente em 20% a 50% dos incidentalomas.
- Metanefrinas no plasma ou na urina de 24 horas, para afastar feocromocitoma, o tumor produtor de adrenalina, em todo nódulo que não tem o aspecto típico de adenoma. Catecolaminas isoladas não servem, porque dão muito resultado falso-positivo.
- Aldosterona e renina, quando há hipertensão ou potássio baixo, para investigar hiperaldosteronismo primário.
Dosagem de rotina de hormônios masculinos e DHEA-S não é recomendada; eles entram só quando a imagem é suspeita ou há sinais clínicos.
O que a secreção leve de cortisol faz com o corpo
Esse é o ponto que a atualização apresentada no congresso brasileiro de endocrinologia de 2025 mais enfatizou. "Não funcionante" não é sinônimo de inofensivo.
Uma metanálise de 2023 (Pelsma e colaboradores), com 46 estudos e mais de 17 mil pacientes, mostrou que quem tem MACS tem mais diabetes, mais hipertensão, mais dislipidemia e mortalidade maior do que quem tem incidentaloma sem secreção, com razão de risco de 1,54. Uma segunda metanálise, de 2024 (Favero e colaboradores), com 19 estudos e 4.716 pessoas, mostrou que mesmo os nódulos classificados como não funcionantes se associam a cerca de duas vezes mais chance de diabetes ou pré-diabetes e a mais hipertensão e síndrome metabólica do que a população sem nódulo.
O osso também sofre. Pacientes com MACS têm 1,6 a 2,1 vezes mais fraturas por fragilidade, e as fraturas de vértebra chegam a ser quatro vezes mais frequentes do que em quem tem nódulo não funcionante. A densitometria subestima esse risco, porque o cortisol prejudica a qualidade do osso mais do que a quantidade.
Operar ou acompanhar
A cirurgia é indicada quando a imagem é suspeita de carcinoma, quando há feocromocitoma, quando há excesso hormonal com manifestação clínica, ou quando um nódulo cresce mais de 20% ou mais de 5 mm no acompanhamento. Na MACS, a decisão é individual: na metanálise de 2023, quem operou melhorou mais o controle do açúcar e da pressão do que quem fez tratamento clínico, mas a evidência ainda é pequena. Idade, grau de secreção, comorbidades e preferência do paciente pesam.
Para o nódulo benigno, pequeno e sem secreção, a diretriz europeia de 2023 é clara: não precisa de nova imagem, nem de repetir o teste de cortisol todo ano. O que se faz é tratar com rigor a pressão, o açúcar, o colesterol e proteger o osso. A avaliação é feita uma vez, bem feita. A decisão é individual e passa pela consulta.
Perguntas frequentes
Nódulo na adrenal é câncer?
Raramente. Menos de 5% dos incidentalomas são carcinomas, e a tomografia sem contraste identifica com segurança a maioria dos adenomas benignos. O que define o risco é a densidade, a homogeneidade e o tamanho do nódulo, não o fato de ele existir.
Preciso repetir a tomografia todo ano?
Se o nódulo é homogêneo, com densidade baixa e menor que 4 cm, não. A diretriz europeia de 2023 dispensa o acompanhamento por imagem nesses casos. Nódulos indeterminados pedem uma nova imagem em 6 a 12 meses, para confirmar que não crescem.
Se o nódulo não produz hormônio, posso esquecer?
Não de todo. Mesmo os nódulos "não funcionantes" se associam a mais diabetes e hipertensão, e os que têm secreção leve de cortisol, a mais fraturas. O nódulo em si pode não precisar de tratamento, mas o metabolismo e o osso merecem atenção.
Fontes
- Fassnacht M, Tsagarakis S, Terzolo M, et al. European Society of Endocrinology clinical practice guidelines on the management of adrenal incidentalomas, in collaboration with the European Network for the Study of Adrenal Tumors. European Journal of Endocrinology, 2023.
- Pelsma ICM, Fassnacht M, Tsagarakis S, et al. Comorbidities in mild autonomous cortisol secretion and the effect of treatment: systematic review and meta-analysis. European Journal of Endocrinology, 2023.
- Favero V, Parazzoli C, Bernasconi DP, Chiodini I. Cardiometabolic comorbidities and cardiovascular events in "non-functioning" adrenal incidentalomas: a systematic review and meta-analysis. Journal of Endocrinological Investigation, 2024.
- Prete A, Bancos I. Mild autonomous cortisol secretion: pathophysiology, comorbidities and management approaches. Nature Reviews Endocrinology, 2024.