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Remédio da classe do GLP-1 antes de cirurgia, endoscopia ou exame com sedação

Quem usa semaglutida, tirzepatida ou liraglutida e vai fazer uma endoscopia, uma colonoscopia, um exame com contraste ou uma cirurgia costuma receber uma orientação diferente de cada profissional. As diretrizes recentes organizaram a resposta. Na maioria dos casos o remédio pode ser mantido, com uma dieta de preparo, e em situações definidas ele é suspenso por um prazo curto.

Ilustração em tinta sobre papel de um estômago com conteúdo retido e um relógio ao lado, representando o esvaziamento gástrico lento antes de um procedimento com sedação
Os remédios da classe do GLP-1 retardam o esvaziamento do estômago. Com sedação ou anestesia, o que ficou lá dentro pode voltar e ir para o pulmão. Ilustração esquemática.

Por que o estômago esvazia mais devagar

O GLP-1 é um hormônio do intestino que avisa o cérebro de que a refeição chegou e, ao mesmo tempo, segura a comida mais tempo no estômago. Os remédios dessa classe (liraglutida, semaglutida e a tirzepatida, que age também no receptor do GIP) imitam esse hormônio. Parte do efeito sobre o apetite vem daí. O mesmo mecanismo faz com que, horas depois de comer, ainda possa haver alimento no estômago. Esse atraso é maior nas primeiras semanas e a cada aumento de dose, e tende a diminuir com o uso contínuo.

O risco: resíduo no estômago e aspiração

Sedação e anestesia geral desligam os reflexos que protegem a via respiratória. Se o estômago não estiver vazio, o conteúdo pode voltar e descer para o pulmão, o que se chama broncoaspiração. É um evento raro, mas grave. A preocupação com os remédios da classe do GLP-1 nasceu de relatos de resíduo encontrado em endoscopias mesmo com o jejum habitual.

Os estudos mais recentes colocaram o problema em proporção. Em uma análise multicêntrica de endoscopias publicada em 2025, o resíduo gástrico caiu de 12,7% para 4,4% quando a última aplicação de um remédio de longa ação tinha sido feita sete dias antes ou mais. O mesmo estudo mostrou que, quanto mais alta a hemoglobina glicada, maior a chance de resíduo: o diabetes descontrolado por si só atrasa o estômago.

O que as diretrizes recomendam

A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2025, apresentada no congresso brasileiro de endocrinologia daquele ano, tem quatro recomendações:

  • Dieta líquida 24 horas antes de qualquer procedimento com sedação ou anestesia geral, seguida de jejum de 8 a 12 horas, que pode ser estendido caso a caso.
  • Ultrassom do estômago à beira do leito sempre que disponível, porque mostra na hora se há resíduo e muda o planejamento da anestesia.
  • Manter a dose e o intervalo habituais em quem usa o remédio de forma estável há mais de 12 semanas e não tem fatores de risco para aspiração.
  • Suspender por sete dias os remédios de aplicação semanal (ou por um dia os de aplicação diária) em quem tem fatores de risco, está em fase de aumento de dose ou ainda não completou 12 semanas na mesma dose.

A orientação americana de dezembro de 2024, assinada em conjunto por cinco sociedades de anestesiologia, gastroenterologia e cirurgia, segue a mesma direção: avaliar o risco de cada pessoa em vez de suspender todo mundo, preferir a dieta líquida de véspera e usar o ultrassom quando houver dúvida.

Quem tem mais risco

A suspensão é indicada quando há um ou mais destes fatores:

  • Uso recente, há menos de 3 meses, ou dose aumentada nas últimas semanas.
  • Sintomas digestivos ativos: náusea, vômito, estufamento, refluxo intenso.
  • Diabetes descontrolado ou gastroparesia, a lentidão do estômago que aparece em diabetes de longa data.
  • Outros remédios que atrasam o estômago: opioides de uso crônico, antidepressivos tricíclicos, anticolinérgicos, inibidores de bomba de prótons, bloqueadores de canal de cálcio.
  • Histórico de aspiração, doenças neuromusculares ou cirurgia prévia do estômago.

O papel do ultrassom do estômago

O ultrassom gástrico point-of-care é um exame rápido feito pelo anestesista na sala, antes de sedar. Ele mostra se há líquido ou sólido retido. Quando o estômago está vazio, o procedimento segue como planejado. Quando há resíduo, o anestesista pode adiar, mudar a técnica ou proteger a via aérea. É o que permite individualizar sem depender de regras fixas de suspensão.

O que fazer na prática

  • Avise o médico que vai fazer o procedimento e o anestesista de que usa um remédio dessa classe, com a data da última aplicação e a dose atual.
  • Faça dieta líquida nas 24 horas que antecedem o procedimento e o jejum de 8 a 12 horas que o serviço orientar.
  • Não suspenda por conta própria. Em quem tem diabetes, parar o remédio pode descontrolar a glicose, e a glicose alta também atrasa o esvaziamento do estômago. Manter ou suspender, e por quanto tempo, é decisão combinada entre o endocrinologista e a equipe do procedimento.
  • Se tiver sintomas digestivos na véspera, comunique antes de chegar ao hospital.

A decisão é individual e passa pela consulta.

Perguntas frequentes

Preciso parar a semaglutida antes de uma colonoscopia?

Não necessariamente. Se a dose está estável há mais de 12 semanas e não há sintomas digestivos nem diabetes descontrolado, a recomendação atual é manter o remédio e fazer a dieta líquida de 24 horas, que na colonoscopia já faz parte do preparo. Quem está em fase de aumento de dose ou tem fatores de risco suspende a aplicação semanal uma semana antes.

E antes de um exame com contraste, como tomografia?

Um exame com contraste sem sedação não exige suspensão. O cuidado vale para procedimentos em que a pessoa é sedada ou anestesiada, porque é a sedação que desliga a proteção da via respiratória.

Suspender o remédio faz perder o efeito?

Uma semana sem a aplicação não desfaz o tratamento, mas pode trazer de volta um pouco do apetite e, em quem tem diabetes, elevar a glicose. Por isso a suspensão é curta e reservada para quem tem fatores de risco. O remédio volta na dose anterior assim que o procedimento passa.

Fontes

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