Deficiências de vitaminas e minerais
Cansaço, queda de cabelo e cãibra viraram pretexto para suplementar sem medir. Deficiência de vitamina ou mineral é um diagnóstico: tem sintoma, tem exame que confirma e tem uma causa que precisa ser tratada. Sem os três, o suplemento é um gasto, e às vezes um risco.

O que é
Vitaminas e minerais são nutrientes que o corpo não fabrica, ou fabrica pouco, e que precisam vir da alimentação. Deficiência é quando a reserva cai a ponto de atrapalhar uma função: o ferro que falta à hemoglobina, a vitamina B12 que falta aos nervos e à medula óssea, a vitamina D que falta ao osso. Deficiência de verdade reúne três coisas: sintoma compatível, exame que confirma e causa que explica por que a reserva caiu.
O que se vê com frequência é o contrário: suplemento tomado por cansaço ou "para dar energia", sem exame, sem causa e sem data para parar. Nutriente em excesso não é inofensivo: ferro se acumula nos órgãos, vitamina D em dose alta sobe o cálcio do sangue, zinco derruba o cobre. A diferença entre tratar e se automedicar está no exame.
Quem precisa de avaliação
O risco aumenta quando a entrada diminui, a absorção falha ou a perda cresce. Entrada reduzida: dietas muito restritas, dieta vegetariana e vegana (a B12 só existe em alimento de origem animal), medicamentos para emagrecer em quem passa a comer pouco, idade avançada e álcool em excesso, que compromete tiamina, folato, magnésio e zinco. Absorção comprometida: cirurgia bariátrica, doença celíaca e outras doenças intestinais, uso prolongado de metformina, que reduz a absorção da B12, e de inibidores de bomba de prótons, os remédios de estômago, que atrapalham B12, ferro e magnésio. Perda aumentada: menstruação intensa, diuréticos, que eliminam magnésio, e a gestação, em que a demanda de ferro, folato e iodo sobe.
Quem está nesses grupos merece exames periódicos mesmo sem sintoma. Quem tem sintoma, como cansaço, queda de cabelo, cãibras, formigamento ou feridas na boca, merece investigação antes do suplemento: a maioria desses sintomas tem outras causas.
Como se investiga
Cada nutriente tem seu exame e sua armadilha.
Ferro: o perfil completo inclui a ferritina, que mede a reserva; o ferro sérico e a saturação de transferrina, que mostram quanto ferro circula disponível; e o hemograma, que revela se a falta já virou anemia. A ferritina sobe em qualquer inflamação, por isso é lida junto com a proteína C reativa: em quem está inflamado, um valor "normal" pode esconder reserva baixa.
Vitamina B12: a dosagem no sangue é o primeiro passo, mas tem uma zona cinzenta, em que o valor não é claramente baixo nem normal. Nessa faixa entram o ácido metilmalônico e a homocisteína, substâncias que se acumulam quando a B12 não funciona dentro das células; se estão altas, a deficiência é real mesmo com B12 "normal". O ácido fólico é dosado junto, porque a falta de um imita a do outro no hemograma. Deficiência sem motivo aparente leva a investigar a anemia perniciosa, doença autoimune que impede a absorção da B12.
Vitamina D: o exame é a 25-hidroxivitamina D, a forma de depósito, e não a 1,25-di-hidroxivitamina D, que mede outra coisa. Repõe-se quando está baixa, com alvo definido, e não por rotina; quem está bem não ganha nada com dose alta.
Magnésio: só cerca de 1% do magnésio do corpo está no sangue; o resto fica no osso e no músculo. Por isso o exame normal não afasta reserva baixa, e o exame baixo é sinal sério, porque a reserva já se esgotou. A suspeita vem do contexto: diurético, álcool, remédio de estômago, diarreia crônica, cãibras e arritmia.
Zinco: a dosagem cai na inflamação e quando há pouca proteína no sangue, e exige leitura cuidadosa. Faz sentido após bariátrica, em doença intestinal, alcoolismo, feridas que não cicatrizam e alteração do paladar.
Cálcio e PTH, o hormônio das paratireoides: entram quando há osso ou rim em jogo, como osteoporose, cálculo renal ou bariátrica, porque a falta de vitamina D e de cálcio faz o PTH subir.
Vitamina A, tiamina (vitamina B1), cobre e selênio só são dosados com contexto: bariátrica, alcoolismo e doenças de má absorção.
O tratamento
Repor pela via certa, na dose e pelo tempo que o exame pede, e tratar a causa. Sem isso, a deficiência volta assim que a reposição para.
A via oral é a primeira escolha na grande maioria dos casos, com formas e horários que favorecem a absorção: ferro longe de café, chá e cálcio; magnésio em sais de boa absorção e com menos efeito intestinal; vitamina D conforme o nível. A via injetável fica para quem não absorve pelo intestino (bariátrica, anemia perniciosa, doença intestinal ativa), não tolera a via oral ou tem deficiência grave com sintoma neurológico.
A terapia parenteral endovenosa tem lugar definido: recuperação nutricional em quem tem deficiência comprovada e má absorção, e infusão de medicamentos com indicação clínica. Não é tratamento de bem-estar, não substitui exame e não se faz "para dar energia".
Tratar a causa é a parte esquecida: ajustar a dieta, rever o remédio de estômago que não precisava continuar, investigar o sangramento por trás do ferro baixo, planejar a suplementação permanente após bariátrica.
Como é o acompanhamento no consultório
O Dr. Lucas começa pela história: o que a pessoa come, o que toma, que cirurgias fez, como estão o intestino e a menstruação. Os exames são escolhidos a partir desse contexto, e não de um painel fixo. A bioimpedância complementa a avaliação de quem perdeu peso rápido ou come pouco, porque mostra se a massa muscular está preservada.
A reavaliação acontece em 8 a 12 semanas, com repetição dos exames alterados e ajuste de dose, via ou duração. Depois, o intervalo segue o caso: quem fez bariátrica ou tem doença intestinal mantém exames periódicos; quem corrigiu uma causa pontual costuma encerrar a reposição. Quando a causa é digestiva ou do sangue, o trabalho é dividido com o gastroenterologista ou o hematologista. Sintoma, exame e causa precisam ser olhados juntos, e isso só acontece em uma avaliação individual.
Perguntas frequentes
Posso tomar um polivitamínico por garantia?
Sem fator de risco e com alimentação variada, não traz benefício comprovado e pode mascarar uma deficiência real. Com risco, como após bariátrica ou em dieta vegana, a suplementação é indicada, com os nutrientes que o caso pede e exame para acompanhar.
Meu magnésio deu normal. Então não falta?
Não é tão simples: o corpo mantém o magnésio do sangue estável às custas da reserva do osso. Em quem tem fator de risco e sintoma compatível, o exame normal não encerra a conversa; já o exame baixo é sinal de reserva esgotada e pede tratamento. O artigo do blog sobre magnésio explica quando suplementar.
Queda de cabelo é falta de vitamina?
Às vezes, e o ferro é o nutriente mais ligado a isso. Mas tireoide, excesso de hormônio masculino, estresse físico recente e perda de peso rápida são causas tão ou mais frequentes. Investigar antes de suplementar evita meses de produto sem resposta.
Fontes
- Gröber U, Schmidt J, Kisters K. Magnesium in Prevention and Therapy. Nutrients, 2015.
- Trost LB, Bergfeld WF, Calogeras E. The diagnosis and treatment of iron deficiency and its potential relationship to hair loss. Journal of the American Academy of Dermatology, 2006.
- NIH Office of Dietary Supplements. Magnesium: Fact Sheet for Health Professionals.
- NIH Office of Dietary Supplements. Vitamin B12: Fact Sheet for Health Professionals.