Bicarbonato e beta-alanina no esporte
Quem luta, rema, nada ou corre provas de média distância conhece a queimação que trava o músculo no fim do esforço. Dois suplementos agem exatamente nesse ponto, segurando a acidez por mais alguns segundos. Eles funcionam, mas o tamanho do efeito só faz diferença para quem disputa décimos de segundo.

Como funcionam
Em um esforço muito intenso, o músculo quebra ATP e glicose em velocidade alta e acumula íons de hidrogênio. O meio fica ácido, as enzimas que produzem energia perdem eficiência, a contração piora e vem a fadiga. É a "queimação" dos últimos metros.
O bicarbonato de sódio age do lado de fora da célula. Tomado antes do exercício, ele eleva o bicarbonato do sangue e cria uma alcalose leve e transitória, que aumenta o gradiente entre dentro e fora do músculo e facilita a saída do hidrogênio e do lactato. O efeito é rápido, em uma a três horas.
A beta-alanina age por dentro. Ela é um aminoácido que o músculo usa para fabricar carnosina, o principal tampão intracelular, que neutraliza o hidrogênio e preserva as enzimas e a contratilidade. Como a carnosina muscular sobe devagar, a beta-alanina precisa de semanas de uso para fazer efeito. Os dois podem ser combinados, porque atuam em compartimentos diferentes, e os consensos da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva descrevem a ação como aditiva.
Para quais esforços
A evidência é mais sólida para esforços de alta intensidade com duração entre 30 segundos e 12 minutos, contínuos ou repetidos. Na prática, isso inclui lutas (boxe, judô, caratê, taekwondo, MMA), remo, natação, ciclismo, corridas de média distância e modalidades com tiros repetidos, como o treino intervalado de alta intensidade. Em corridas longas, em caminhada e no treino de força convencional, o mecanismo de fadiga é outro, e esses suplementos não ajudam.
O tamanho do ganho
Os ganhos medidos nos estudos ficam entre 0,5% e 3% do desempenho. Isso é muito pouco para quem treina por saúde e para a maior parte dos amadores, e pode ser decisivo em competição, onde a diferença entre posições cabe nesse intervalo. Os consensos reforçam: os benefícios aparecem em homens e mulheres, em atletas profissionais e amadores, mas são pequenos e variam de pessoa para pessoa.
Protocolos, em termos gerais
O bicarbonato é usado em dose única, calculada pelo peso corporal, de uma a três horas antes do esforço, de preferência com alimento. Há também um esquema de alguns dias, com doses menores fracionadas nas refeições, que reduz o desconforto intestinal no dia da prova. Quem define a dose e o horário é o profissional de nutrição esportiva que acompanha o atleta.
A beta-alanina é usada diariamente, em doses pequenas e divididas ao longo do dia, por 4 a 12 semanas antes da competição, porque é o tempo necessário para elevar a carnosina muscular. Tomada só no dia, não faz nada.
Efeitos colaterais
O bicarbonato causa náusea, dor abdominal, vômito e diarreia em uma parcela das pessoas, especialmente em dose única sem alimento. A beta-alanina causa formigamento na pele, chamado parestesia, que é leve, passageiro, depende da dose e diminui com doses fracionadas. Nenhum dos dois é proibido pelo antidoping, e ambos estão entre os poucos suplementos com evidência consistente de efeito.
Testar em treino, nunca na prova
Como a resposta individual varia e os efeitos colaterais podem atrapalhar mais do que o suplemento ajuda, a regra é testar o protocolo em treinos que simulem a prova, com produto certificado, e só levar para a competição o que funcionou. A pessoa que sente enjoo com bicarbonato perde muito mais do que os 2% que ganharia.
Quem não precisa
A maioria das pessoas que treina por saúde, estética ou condicionamento não precisa de nenhum dos dois. O ganho de 1% ou 2% em um esforço de 5 minutos não muda a composição corporal, não muda o colesterol nem a glicose. Para esse público, treino regular, proteína adequada, sono e, quando indicado, creatina rendem muito mais. Bicarbonato e beta-alanina são ferramentas de rendimento, para quem tem uma prova no calendário.
Perguntas frequentes
Bicarbonato de cozinha serve?
É a mesma substância, mas a dose calculada pelo peso, o horário e o uso com alimento é que separam efeito de enjoo. Sem acompanhamento, o risco de desconforto intestinal no dia errado é alto. Produtos certificados atestam o teor e a ausência de contaminantes.
Beta-alanina serve para ganhar músculo?
Não. Ela aumenta a capacidade de tamponar acidez em esforços intensos e curtos. Não tem efeito direto em hipertrofia nem em perda de gordura.
Posso usar os dois juntos?
Os consensos descrevem efeito aditivo, porque um tampona fora da célula e o outro dentro. A combinação faz sentido para atletas de modalidades na janela de 30 segundos a 12 minutos, sempre testada em treino antes da prova.
Para quem compete, a decisão é individual e passa pela avaliação com a equipe que acompanha o atleta.
Fontes
- Grgic J, Pedisic Z, Saunders B, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: sodium bicarbonate and exercise performance. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2021.
- Trexler ET, Smith-Ryan AE, Stout JR, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: beta-alanine. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2015.
- Kreider RB, Kalman DS, Antonio J, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2017.