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Aldosterona alta e pressão alta (hiperaldosteronismo primário)

Pressão alta que não controla com dois ou três remédios, potássio baixo no exame ou um nódulo na adrenal levantam a suspeita de excesso de aldosterona. É uma causa frequente, tratável e muito pouco diagnosticada de hipertensão. Em 2025, a diretriz americana passou a sugerir o rastreio em toda pessoa com pressão alta.

Ilustração em tinta sobre papel das glândulas adrenais sobre os rins, ligadas por uma seta ao coração e a um vaso sanguíneo
A aldosterona, produzida nas adrenais, manda o rim reter sal e água. Em excesso, ela eleva a pressão e agride o coração e as artérias por conta própria. Ilustração esquemática.

O que é

A aldosterona é um hormônio produzido na camada externa das glândulas adrenais. A função dela é mandar o rim reter sódio e água e eliminar potássio, o que sustenta a pressão arterial. Em condições normais, a produção é comandada pela renina, uma enzima que o rim libera quando a pressão ou o volume de sangue caem.

Hiperaldosteronismo primário é quando a adrenal produz aldosterona por conta própria, sem o comando da renina. O resultado é pressão alta, muitas vezes resistente a remédios, e, numa parte dos casos, potássio baixo. A causa pode ser um nódulo produtor de aldosterona em uma adrenal ou um aumento das duas glândulas. Hoje se sabe que a origem está em pequenos aglomerados de células com mutações que as fazem produzir aldosterona sem freio.

Por que importa

É a causa mais comum de hipertensão secundária, isto é, de pressão alta com uma causa identificável. Estima-se que esteja presente em 5% a 14% dos hipertensos atendidos na atenção primária e em até 30% dos atendidos em centros de referência. Mesmo assim, a imensa maioria nunca é diagnosticada, porque o potássio baixo, o sinal clássico, só aparece em 9% a 37% dos casos no momento do diagnóstico, e a maioria dos pacientes tem potássio normal.

O problema é que a aldosterona em excesso não faz só subir a pressão. Ela provoca inflamação e fibrose no coração, nos vasos e nos rins, e o risco de infarto, AVC, fibrilação atrial e doença renal é maior do que o de hipertensos com a mesma pressão e aldosterona normal. Por isso vale a pena procurar: quem é tratado de forma específica, com cirurgia ou com o remédio certo, reduz esse risco.

O que a diretriz de 2025 mudou

A Endocrine Society, a sociedade americana de endocrinologia, publicou em 2025 uma nova diretriz (Adler e colaboradores) que sugere o rastreio de hiperaldosteronismo primário em todas as pessoas com hipertensão, e não só nas de alto risco, como era antes. A justificativa é que a doença é comum, o rastreio é um exame de sangue simples, e estudos econômicos em três países mostraram que rastrear amplamente compensa, porque evita complicações cardiovasculares em quem recebe tratamento específico. No Brasil, onde quase 28% dos adultos têm hipertensão, o impacto potencial é grande.

A forma subclínica: aldosterona alta com pressão normal

Esse é o conceito que a atualização apresentada no congresso brasileiro de endocrinologia de 2025 discutiu mais a fundo. Há pessoas com pressão normal, renina suprimida e aldosterona que não é adequadamente suprimida pelo sal. É o hiperaldosteronismo subclínico: a mesma produção autônoma, num grau menor, antes de a pressão subir.

A coorte CARTaGENE, no Canadá, acompanhou 1.284 pessoas de 40 a 69 anos, 57% delas com pressão normal. Quanto maior a relação entre aldosterona e renina, maior a rigidez das artérias, maior o remodelamento do coração (aumento do átrio e hipertrofia do ventrículo esquerdo) e maior a chance de desenvolver hipertensão nos 5 a 7 anos seguintes. Os efeitos eram independentes da pressão arterial e apareciam também em quem tinha pressão normal (Hundemer e colaboradores, Circulation, 2024). Uma análise de seguimento da mesma coorte, apresentada em 2025, mostrou associação com mais infarto, AVC, internação por insuficiência cardíaca e morte cardiovascular, de novo independentemente dos níveis de pressão.

A conclusão dos pesquisadores é que o hiperaldosteronismo é um espectro contínuo, que começa antes da hipertensão. O que ainda não se sabe é se vale a pena tratar preventivamente quem tem aldosterona alta e pressão normal. Não há estudo que mostre que isso evita o remodelamento cardíaco ou os eventos cardiovasculares. Por enquanto, a forma subclínica é uma realidade a reconhecer e acompanhar, não uma indicação de remédio.

Como se investiga

O rastreio é a dosagem de aldosterona e renina no sangue, pela manhã, com o cálculo da relação entre as duas. Renina baixa com aldosterona alta é o padrão da doença. Vários remédios para pressão interferem no resultado; a diretriz de 2025 orienta fazer o exame sem suspender a medicação, ou com o mínimo de ajuste, corrigindo antes o potássio e mantendo a dieta habitual de sal.

Quando o rastreio é positivo, um teste confirmatório, em geral uma sobrecarga de sal, mostra se a aldosterona de fato não suprime. Depois vem a tomografia das adrenais e, para quem é candidato a cirurgia, o cateterismo das veias adrenais, que diz se o excesso vem de um lado só ou dos dois. Essa última etapa é decisiva, porque um nódulo visto na tomografia nem sempre é o que produz a aldosterona.

Como se trata

Quando a produção vem de uma adrenal só, a retirada dessa glândula por videolaparoscopia cura o excesso de aldosterona e, em boa parte dos pacientes, cura ou melhora muito a hipertensão. Quando vem dos dois lados, ou quando a cirurgia não é desejada, o tratamento é com um bloqueador do receptor da aldosterona, a espironolactona ou a eplerenona, em dose ajustada até a renina deixar de estar suprimida. A diretriz de 2025 coloca esses remédios como primeira escolha do tratamento clínico, porque bloqueiam o efeito do hormônio no coração e nos vasos, e não só a pressão.

A decisão entre operar e medicar é individual e passa pela consulta.

Perguntas frequentes

Tenho pressão alta. Preciso dosar aldosterona?

Pela diretriz de 2025, sim, pelo menos uma vez. A suspeita é maior se a pressão não controla com três remédios, se o potássio está baixo, se há nódulo na adrenal, apneia do sono, fibrilação atrial ou hipertensão antes dos 40 anos.

Potássio normal afasta a doença?

Não. A maioria das pessoas com hiperaldosteronismo primário tem potássio normal. O potássio baixo é um sinal tardio, e esperá-lo é a principal razão de a doença passar despercebida.

Se minha pressão é normal, mas a aldosterona está alta, devo tomar remédio?

Hoje não há evidência de que tratar previna o aparecimento de hipertensão ou de eventos cardiovasculares. O que se recomenda é acompanhar a pressão, o coração e os fatores de risco, e tratar quando a hipertensão aparecer.

Fontes

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