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Os próximos remédios para obesidade

A cada ano chegam notícias de um remédio novo para obesidade com perda de peso maior que o anterior. Vale separar o que já pode ser prescrito no Brasil do que ainda está em pesquisa, entender o que cada molécula faz de diferente e lembrar que mais potência pede mais acompanhamento, não menos.

Ilustração em tinta sobre papel de quatro chaves diferentes diante de quatro fechaduras, representando os receptores de GLP-1, GIP, glucagon e amilina
Os novos remédios combinam chaves para mais de um receptor: GLP-1, GIP, glucagon e amilina. Cada combinação age de um jeito no apetite, no estômago e no metabolismo. Ilustração esquemática.

Os quatro hormônios por trás dos novos remédios

Os remédios atuais e os que vêm aí imitam hormônios que o próprio corpo produz depois de comer:

  • GLP-1: produzido no intestino, avisa o cérebro que a refeição chegou, reduz o apetite, retarda o esvaziamento do estômago e estimula a insulina quando a glicose sobe.
  • GIP: também do intestino, reforça a ação do GLP-1 e age no tecido gorduroso e na sensibilidade à insulina.
  • Glucagon: produzido no pâncreas, aumenta o gasto de energia e a queima de gordura pelo fígado.
  • Amilina: liberada junto com a insulina, dá saciedade por outra via do cérebro e também segura o estômago.

Os remédios que ativam dois ou três desses receptores são os agonistas duplos e triplos, e é neles que está a maior parte da novidade.

O que já está aprovado no Brasil

Três remédios dessa família têm registro para obesidade no Brasil: a liraglutida, de aplicação diária, a semaglutida, semanal, e a tirzepatida, semanal, que age no GLP-1 e no GIP. Nos estudos que levaram ao registro, a perda média de peso foi de cerca de 9% com a liraglutida, 17% com a semaglutida e até 22% com a tirzepatida na dose mais alta, sempre junto com mudança de alimentação e atividade física. As páginas sobre obesidade e cirurgia bariátrica tratam de quando cada opção é indicada.

O que vem aí

  • Semaglutida em dose maior. No estudo STEP UP, apresentado em 2025, uma dose três vezes maior que a atual levou a perda média de 20,7% do peso em 72 semanas, contra 17,5% com a dose habitual, com perfil de efeitos adversos semelhante.
  • Semaglutida oral. A versão em comprimido, já usada no diabetes em dose baixa, foi estudada em dose maior para obesidade e deve chegar ao mercado em breve.
  • Orforglipron. É um comprimido que ativa o receptor do GLP-1, mas não é um peptídeo: é uma molécula pequena, que não precisa de geladeira nem de jejum para ser absorvida. Os estudos de fase 3 em obesidade e diabetes tipo 2 foram concluídos em 2025 e o pedido de registro está em andamento em outros países.
  • Retatrutida. Agonista triplo, de GLP-1, GIP e glucagon, em aplicação semanal. No estudo de fase 2, a perda de peso chegou a 24% em 48 semanas na dose mais alta, e um quarto dos participantes perdeu mais de 30% do peso. Os estudos de fase 3 ainda estão em andamento.
  • Maritide. Combina um anticorpo contra o receptor do GIP com dois peptídeos de GLP-1. Como o anticorpo dura muito no sangue, a aplicação pode ser mensal ou até mais espaçada. Está em fase 2.
  • Cagrilintida com semaglutida. Junta um análogo da amilina ao GLP-1. No estudo REDEFINE 2, em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, a combinação produziu perda de peso comparável à da tirzepatida nas doses mais altas.
  • Bimagrumabe. Um anticorpo que bloqueia os receptores da miostatina e das activinas, moléculas que freiam o crescimento muscular. No estudo de fase 2 em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, reduziu a gordura corporal e aumentou a massa magra ao mesmo tempo. Está sendo estudado em combinação com a semaglutida.

O que a atualização de 2025 mudou

A atualização apresentada no congresso brasileiro de endocrinologia de 2025 resumiu o cenário em uma frase: estamos diante de moléculas que vão popularizar os análogos de GLP-1, com agonistas duplos e triplos que beneficiarão pacientes de perfis diferentes.

A mesma atualização lembrou que a maioria das pessoas precisará manter o remédio por tempo indeterminado, e que a cirurgia bariátrica continua uma opção com indicação clara na obesidade grau 3, cada vez mais combinada com remédio.

Mais potência, mais acompanhamento

Perder 20% ou 25% do peso é perder gordura, mas também músculo e osso. Quanto maior e mais rápida a perda, mais importa medir a composição corporal, garantir proteína suficiente, treinar força e, em quem tem risco, acompanhar a densidade óssea. Os efeitos digestivos e o uso antes de cirurgias e exames com sedação também entram no plano. Remédio novo não dispensa nada disso. A decisão sobre qual usar, quando e por quanto tempo é individual e passa pela consulta.

Perguntas frequentes

Já posso usar retatrutida ou orforglipron no Brasil?

Não. Nenhum dos dois tem registro na Anvisa. A retatrutida está em estudos de fase 3 e o orforglipron teve os estudos concluídos em 2025. Produto vendido como se fosse essas moléculas, fora de pesquisa clínica, não tem controle de conteúdo nem de qualidade.

Um remédio mais potente é sempre a escolha certa?

Não. A escolha depende do quanto de peso precisa ser perdido, das doenças associadas, da tolerância aos efeitos digestivos, do custo e da capacidade de manter o tratamento. Para muita gente, a semaglutida ou a tirzepatida já resolvem. Perder mais peso do que o necessário aumenta a perda de músculo sem ganho de saúde.

Esses remédios substituem a cirurgia bariátrica?

Não, ao menos por enquanto. A cirurgia produz perda de peso de 25% a 35% e continua indicada na obesidade grau 3 com doenças associadas. O que mudou é que os dois caminhos se combinam: cerca de 14% das pessoas operadas nos Estados Unidos iniciam um remédio da classe do GLP-1 depois da cirurgia, em geral quando o peso estabiliza ou volta a subir.

Fontes

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