Gordura no fígado (MASLD)
Um em cada três adultos tem gordura acumulada no fígado, quase sempre sem sentir nada. Desde 2023 ela tem nome novo, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, e o nome diz o essencial: é o metabolismo avisando por outro órgão. A avaliação serve para medir o risco de cicatriz no fígado e tratar o que está por trás.

O que é
Gordura no fígado é o acúmulo de gordura dentro das células hepáticas, a esteatose dos laudos. Durante décadas a doença se chamou "fígado gorduroso não alcoólico", um nome que só dizia o que ela não era. Em 2023, as sociedades de fígado das Américas e da Europa, num consenso coordenado por Rinella, adotaram o nome doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, MASLD na sigla em inglês. O nome novo exige que, além da gordura, exista um sinal de que o metabolismo está em desordem.
O diagnóstico tem dois passos. O primeiro é demonstrar a esteatose: no ultrassom, na elastografia com medida de gordura, na ressonância (5% ou mais de gordura no fígado) ou, raramente, na biópsia. O segundo é encontrar pelo menos um de cinco critérios cardiometabólicos no adulto:
- cintura aumentada ou índice de massa corporal (IMC) de 25 ou mais;
- glicemia de jejum de 100 ou mais, ou diagnóstico de diabetes tipo 2;
- pressão arterial de 130 por 85 ou mais, ou uso de remédio para pressão;
- triglicerídeos de 150 ou mais, ou tratamento para isso;
- HDL, o colesterol protetor, abaixo de 40 no homem ou de 50 na mulher.
A doença é um espectro: esteatose simples, gordura sem inflamação; esteato-hepatite, MASH, quando há inflamação e lesão das células; fibrose, a cicatriz que a inflamação deixa; e, no extremo, cirrose, com risco de câncer de fígado.
É a doença de fígado mais comum do mundo: cerca de 30% dos adultos, segundo a revisão de Younossi de 2023, e mais de dois terços de quem tem diabetes tipo 2. Quase sempre não dá sintoma, o que explica o título do artigo Gordura no fígado: a doença metabólica que ninguém sente.
Um contexto: em outubro de 2026, o JAMA publicou os critérios da MASLD para crianças e adolescentes, com a mesma lógica dos dois passos, e lembrou que ela já é a causa mais comum de doença crônica do fígado nessa faixa etária. Para o adulto, o recado é que a doença começa cedo; a diferença é o tempo de evolução, e o tempo é o que transforma gordura em cicatriz.
Quem precisa de avaliação
A diretriz da AASLD, a sociedade americana de fígado, de 2023, recomenda procurar a doença ativamente nestes grupos:
- quem tem diabetes tipo 2 ou pré-diabetes;
- quem tem obesidade ou excesso de peso somado a pelo menos mais um critério metabólico;
- quem tem enzimas do fígado alteradas em exame de rotina;
- quem tem parente de primeiro grau com cirrose por MASLD;
- quem recebeu um laudo de "esteatose" em exame de imagem.
Como se investiga
A pergunta central não é "tem gordura?", que o ultrassom já respondeu, e sim "quanto de cicatriz já existe?", porque é a fibrose que determina o risco de cirrose, de câncer de fígado e de morte.
Sangue. ALT e AST, as transaminases, medem lesão das células do fígado; na MASLD a ALT costuma ser a mais alta, e um valor normal não exclui fibrose. A GGT acompanha. As plaquetas importam porque caem quando o fígado cicatriza.
FIB-4. Com idade, AST, ALT e plaquetas calcula-se o FIB-4, um escore que estima o risco de fibrose avançada. Abaixo de 1,3, risco baixo: repete-se em um a dois anos, ou todo ano em quem tem diabetes. Acima de 2,67, risco alto: elastografia e, em geral, hepatologista. Entre um valor e outro, zona intermediária, que pede o passo seguinte.
CORE, o escore novo. Em 2025, pesquisadores suecos publicaram no BMJ o escore CORE, calculado com idade, sexo, AST, ALT e GGT. Em 480 mil adultos sem doença do fígado conhecida, ele previu cirrose e suas complicações em dez anos com 88% de acerto, contra 79% do FIB-4, e foi validado na Finlândia e no Reino Unido. Ainda não substitui o FIB-4 nas diretrizes, mas usa exames igualmente comuns e tende a ser incorporado ao rastreio. Em 2026, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou a primeira resolução global sobre doença hepática esteatótica, e a América Latina aparece como a região de maior prevalência: calcular o risco com o sangue já colhido é o passo que mais falta na prática.
Elastografia. A elastografia transitória mede a rigidez do fígado e, no mesmo exame, a quantidade de gordura. Entra quando o FIB-4 é intermediário ou alto. A ressonância fica para casos selecionados, como a obesidade grave, em que a elastografia perde precisão.
Afastar outras causas. A consulta quantifica o álcool, porque acima de cerca de 140 gramas por semana na mulher e 210 no homem o diagnóstico muda. Entram também as sorologias de hepatite B e C, ferritina e saturação de transferrina para hemocromatose, autoanticorpos quando há suspeita de doença autoimune e a revisão dos medicamentos em uso.
Painel metabólico junto. Glicemia de jejum, hemoglobina glicada, perfil lipídico, cintura, pressão arterial e bioimpedância. O fígado é um dos órgãos onde a resistência à insulina aparece primeiro.
Quando encaminhar. FIB-4 alto, elastografia compatível com fibrose avançada ou qualquer sinal de cirrose levam ao hepatologista, e o cuidado passa a ser compartilhado.
O tratamento
As camadas se somam conforme o estágio e o que a pessoa tem junto.
Peso. É a intervenção com mais evidência. Perder de 7% a 10% do peso reduz a gordura e a inflamação do fígado; acima disso, a fibrose pode regredir.
Alimentação. Menos ultraprocessado, menos bebida com açúcar, que é frutose indo direto para o fígado, e um padrão de base mediterrânea: vegetais, leguminosas, azeite, peixe. Álcool, o mínimo possível; quando há fibrose, nenhum.
Atividade física. Reduz a gordura do fígado mesmo quando a balança não muda. Aeróbico e musculação, os dois.
Tratar o que vem junto. Diabetes, pressão alta e colesterol são tratados com rigor, porque o coração é o que mais ameaça quem tem a doença.
Medicamentos para obesidade e diabetes com efeito no fígado. No ensaio ESSENCE, publicado em 2025, a semaglutida levou à resolução da esteato-hepatite em cerca de 63% das pessoas, contra 34% com placebo, e à melhora da fibrose em cerca de 37%, contra 22%.
Resmetirom. É o primeiro medicamento aprovado especificamente para a esteato-hepatite com fibrose. No ensaio MAESTRO-NASH de 2024, levou à resolução da esteato-hepatite em cerca de 26% a 30% das pessoas, contra 10% com placebo. A indicação é restrita à fibrose moderada a avançada, em decisão conjunta com o hepatologista.
Cirurgia bariátrica. Na obesidade grave, é o que mais faz regredir inflamação e fibrose.
Como é o acompanhamento no consultório
O Dr. Lucas atende adultos e trata a gordura no fígado como o que ela é: uma manifestação de doença metabólica. A primeira consulta reúne os exames que a pessoa já tem, calcula o FIB-4, mede cintura, pressão e composição corporal por bioimpedância e define se a elastografia é necessária agora, com metas metabólicas claras no plano.
O retorno repete FIB-4 e enzimas a cada 6 a 12 meses, conforme o risco, e a elastografia no intervalo que o estágio pede. A bioimpedância mostra se o peso que saiu foi gordura, e não músculo. Quando há fibrose, o cuidado é dividido com o hepatologista. Cada fígado tem uma história, e o caminho certo para a sua sai de uma avaliação individual.
Perguntas frequentes
"Esteatose leve" no ultrassom é motivo de preocupação?
É motivo de investigação, não de alarme. "Leve" se refere à quantidade de gordura, não ao risco, e o ultrassom não diz se há inflamação ou cicatriz. Enzimas, plaquetas e o FIB-4 respondem se é preciso ir adiante.
Preciso fazer biópsia?
Na grande maioria das vezes, não. O FIB-4 e a elastografia classificam o risco de fibrose sem agulha. A biópsia ficou reservada para quando esses exames discordam ou há dúvida sobre outra doença do fígado.
Remédio para emagrecer trata a gordura no fígado?
Pode tratar: em ensaio clínico com biópsia, a semaglutida reduziu inflamação e fibrose em mais pessoas do que o placebo. Mas o remédio é uma das camadas, e a indicação depende do peso, do diabetes e do estágio da doença.
Fontes
- Strandberg R, et al. Use of new CORE risk score to predict 10 year risk of liver cirrhosis in general population: population based cohort study. BMJ, 2025.
- Rubin R. Steatotic Liver Disease Is Becoming a Higher Priority Worldwide. JAMA Medical News, 2026.
- Rinella ME, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature. Hepatology, 2023.
- Rinella ME, et al. AASLD Practice Guidance on the clinical assessment and management of nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology, 2023.
- Younossi ZM, et al. The global epidemiology of nonalcoholic fatty liver disease (NAFLD) and nonalcoholic steatohepatitis (NASH): a systematic review and meta-analysis. Hepatology, 2023.
- Sanyal AJ, et al. Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis (ESSENCE). New England Journal of Medicine, 2025.
- Harrison SA, et al. A Phase 3, Randomized, Controlled Trial of Resmetirom in NASH with Liver Fibrosis (MAESTRO-NASH). New England Journal of Medicine, 2024.
- Mann JP, Byrne CD, Targher G. Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease in Children and Adolescents. JAMA, 2026.