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Testes funcionais em endocrinologia

Em endocrinologia, nem sempre basta dosar um hormônio no sangue. Muitos deles sobem e descem ao longo do dia, e um valor isolado pode parecer normal numa glândula doente ou alterado numa glândula sadia. Os testes funcionais existem para resolver essa dúvida. Eles provocam a glândula e medem a resposta.

Ilustração em tinta sobre papel da hipófise ligada à glândula adrenal por uma seta, com uma curva de resposta hormonal ao lado, representando um teste de estímulo
Um teste de estímulo dá à glândula um sinal conhecido e mede o quanto ela responde. Uma resposta fraca indica deficiência; uma resposta que não se deixa suprimir indica excesso. Ilustração esquemática.

Por que um exame isolado pode enganar

A maioria dos hormônios não é liberada de forma contínua. O cortisol é alto de manhã e baixo à noite. O hormônio do crescimento (GH) sai em pulsos curtos, principalmente no sono profundo, e passa boa parte do dia quase indetectável. Além do ritmo, muita coisa interfere: sono, estresse, jejum, obesidade, doenças agudas e crônicas, medicamentos e corticoides. Um GH baixo numa amostra colhida de manhã não diz nada: é assim na maioria das pessoas. Para saber se a glândula funciona, é preciso provocá-la.

Supressão e estímulo

Os testes funcionais se dividem em dois grupos, cada um para uma pergunta diferente:

  • Teste de supressão avalia excesso. Dá-se um sinal que, numa glândula normal, desliga a produção do hormônio. Se o hormônio não cai, a produção é autônoma, como num tumor. Exemplos: a dexametasona, um corticoide, deve suprimir o cortisol; quando não suprime, investiga-se a síndrome de Cushing. A glicose deve suprimir o GH; quando não suprime, investiga-se a acromegalia.
  • Teste de estímulo avalia falta. Dá-se um sinal que, numa glândula normal, dispara a produção. Se o hormônio não sobe o suficiente, há deficiência. Exemplos: o ACTH sintético deve fazer a adrenal produzir cortisol; a hipoglicemia provocada por insulina, ou o glucagon, deve fazer a hipófise liberar GH.

Insuficiência adrenal

Quando a suspeita é de falta de cortisol, a avaliação começa pelo cortisol colhido pela manhã. Um valor muito baixo confirma a insuficiência, e um valor claramente alto a exclui. Entre um extremo e outro fica uma faixa cinzenta em que o exame basal não decide, e é aí que entra o teste com ACTH sintético: injeta-se o hormônio que normalmente comanda a adrenal e mede-se o cortisol a seguir. Resposta adequada afasta a insuficiência; resposta fraca confirma. O ACTH no sangue serve para outra pergunta: se o problema está na adrenal ou na hipófise.

Deficiência de GH no adulto

No adulto, a deficiência de GH causa cansaço, perda de massa magra, aumento da gordura, alteração do colesterol e redução da densidade óssea. A suspeita surge, em geral, em quem tem doença conhecida da hipófise: tumor, cirurgia, radioterapia, traumatismo craniano ou inflamação. O IGF-1, o hormônio que o fígado produz em resposta ao GH, é o primeiro exame, porque é estável ao longo do dia. Mas o IGF-1 normal não exclui a deficiência, e por isso o teste de estímulo é necessário na maioria dos casos.

A diretriz americana de 2019 define quando o teste pode ser dispensado: quem tem três ou mais eixos da hipófise deficientes e IGF-1 claramente baixo já tem o diagnóstico e não precisa ser testado. Fora dessa situação, os testes disponíveis no Brasil são o de tolerância à insulina, que provoca uma hipoglicemia controlada e é considerado o padrão, e o do glucagon, usado quando a insulina é contraindicada. A macimorelina, um estimulante oral que simplifica muito o exame, não está disponível no Brasil. O ponto de corte do GH varia com o teste e com o peso: em pessoas com obesidade, a resposta é naturalmente menor e o limite é mais baixo.

Limitações

Os testes funcionais exigem cautela na interpretação:

  • Variabilidade dos ensaios. Laboratórios diferentes medem o GH e o cortisol com métodos diferentes, e os pontos de corte nem sempre são comparáveis.
  • Reprodutibilidade. O mesmo teste repetido na mesma pessoa pode dar resultados diferentes, com risco de falso positivo.
  • Fatores individuais. Idade, índice de massa corporal, estado nutricional e doenças crônicas alteram a resposta. A obesidade atenua a resposta do GH e pode simular deficiência.
  • Segurança. O teste com insulina provoca hipoglicemia e é contraindicado em quem tem epilepsia, doença coronariana, AVC prévio ou mais de 60 anos.

Interpretar no contexto

Um resultado de teste funcional nunca fecha um diagnóstico sozinho. Ele é lido junto com a história clínica, o exame físico, a probabilidade da doença antes do teste e os possíveis interferentes do dia da coleta. Um teste alterado numa pessoa sem motivo para ter a doença é, com frequência, um falso positivo; um teste normal numa pessoa com quadro clínico forte pode merecer repetição ou outro teste.

Em crianças, a avaliação do crescimento e da deficiência de GH tem regras próprias, com outros testes e outros pontos de corte, e é assunto da endocrinologia pediátrica. Esta página trata do adulto. A decisão de testar é individual e passa pela consulta.

Perguntas frequentes

Meu GH deu baixo num exame de sangue. Tenho deficiência?

Provavelmente não. O GH é liberado em pulsos e fica baixo na maior parte do dia em qualquer pessoa. Um GH isolado não serve para diagnosticar deficiência. O que se usa é o IGF-1 e, quando indicado, um teste de estímulo.

O teste com insulina é perigoso?

Ele provoca uma hipoglicemia de propósito, por isso é feito em ambiente preparado, com glicose na veia à disposição e acompanhamento contínuo. É contraindicado em quem tem epilepsia, doença do coração, AVC prévio ou idade acima de 60 anos. Nesses casos, usa-se o teste do glucagon.

Posso fazer um teste funcional sem indicação, para "checar os hormônios"?

Não faz sentido. Fora de uma suspeita clínica, a chance de um resultado alterado ser falso é alta, e o teste pode levar a tratamentos desnecessários. Teste funcional responde a uma pergunta específica, que nasce da consulta.

Fontes

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