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Gordura no fígado: a doença metabólica que ninguém sente
Um em cada três adultos tem gordura no fígado e quase ninguém sente. Desde 2023 a doença tem nome novo, critério metabólico e, pela primeira vez, remédio com resultado em biópsia. O que o laudo de esteatose está dizendo e o que fazer com ele.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
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Apareceu "esteatose" no seu ultrassom e ninguém explicou? É o metabolismo avisando por outro órgão. Gordura no fígado é a doença hepática mais comum do mundo, não dá sintoma e, em parte das pessoas, está deixando cicatriz enquanto ninguém olha.
O que é, e por que mudou de nome
Quando a insulina rende menos, como explico no artigo sobre resistência à insulina, sobra açúcar e gordura circulando, e o fígado vira depósito. Essa gordura dentro das células hepáticas é a esteatose. Durante décadas isso se chamou "fígado gorduroso não alcoólico", um nome definido pelo que a doença não era. Em 2023, as sociedades de fígado das Américas e da Europa, num consenso coordenado por Rinella, trocaram o nome para doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, MASLD na sigla em inglês. O nome novo diz de onde vem a gordura.
O tamanho do problema: cerca de 30% dos adultos do mundo, segundo a revisão de Younossi de 2023, e mais de dois terços de quem tem diabetes tipo 2.
O diagnóstico em dois passos
Pelos critérios de 2023, o diagnóstico exige duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, gordura no fígado demonstrada em exame: ultrassom, elastografia com medida de gordura, ressonância com 5% ou mais de gordura ou, raramente, biópsia. Segundo, pelo menos um de cinco sinais de que o metabolismo está em desordem: cintura aumentada ou índice de massa corporal de 25 ou mais; glicemia de jejum de 100 ou mais, ou diabetes tipo 2; pressão de 130 por 85 ou mais, ou remédio para pressão; triglicerídeos de 150 ou mais, ou tratamento; HDL abaixo de 40 no homem ou de 50 na mulher.

Gordura sem nenhum desses critérios aponta para outra causa: álcool, remédio, hepatite viral, doença autoimune ou acúmulo de ferro. E a doença é um espectro: gordura simples, depois inflamação (a esteato-hepatite, MASH), depois cicatriz (fibrose) e, no extremo, cirrose. O que define o risco não é a quantidade de gordura, é a quantidade de cicatriz.
Por que o JAMA falou de criança esta semana
Em 21 de outubro de 2026, o JAMA publicou os critérios da MASLD para crianças e adolescentes, com a mesma lógica dos dois passos, e lembrou que ela já é a causa mais comum de doença crônica do fígado nessa faixa etária. Eu atendo adultos, e trago isso por um motivo só: a doença começa cedo, e quem chega ao consultório aos quarenta com "esteatose leve" pode carregar aquilo há vinte anos. A diferença é o tempo de evolução, e o tempo é o que transforma gordura em cicatriz.
Quem deve investigar
A diretriz da AASLD, a sociedade americana de fígado, de 2023, diz para procurar a doença, e não esperar o laudo, em cinco situações: diabetes tipo 2 ou pré-diabetes; obesidade ou excesso de peso somado a mais um critério metabólico; enzimas do fígado alteradas em exame de rotina; parente de primeiro grau com cirrose por MASLD; e qualquer achado de esteatose em exame de imagem.
Como se mede o risco sem biópsia
A resposta mais importante, "quanto de cicatriz já tem?", sai de exames que a maioria das pessoas já fez.
O FIB-4 é um cálculo que usa idade, AST, ALT (as duas enzimas do fígado) e contagem de plaquetas. Abaixo de 1,3, o risco de fibrose avançada é baixo e o exame se repete em um a dois anos. Acima de 2,67, o risco é alto e a pessoa vai para o hepatologista. Entre um valor e outro, a zona intermediária, que pede o passo seguinte.
O passo seguinte é a elastografia transitória, um exame parecido com um ultrassom que mede a rigidez do fígado e, de quebra, a quantidade de gordura. Fígado rígido é fígado com cicatriz. A biópsia hoje é exceção.
Junto vai o painel do metabolismo: glicemia, hemoglobina glicada, lipídios, cintura, pressão e bioimpedância.
O que faz a gordura voltar atrás
A gordura do fígado é reversível, e isso foi medido.
Peso. Perder de 7% a 10% do peso reduz a gordura e a inflamação; acima disso, a fibrose pode regredir.
Comida. Menos ultraprocessado e, sobretudo, menos bebida com açúcar, que é frutose indo direto para o fígado. Padrão mediterrâneo, com vegetais, leguminosas, azeite e peixe. Álcool, o mínimo; com fibrose, nenhum. O pré-diabetes responde às mesmas medidas, e não por acaso.
Movimento. Atividade física reduz a gordura do fígado mesmo quando a balança não se mexe.
Remédios. Os medicamentos modernos para obesidade e diabetes agem no fígado por tabela. No ensaio ESSENCE, publicado em 2025, a semaglutida resolveu a esteato-hepatite em cerca de 63% das pessoas, contra 34% com placebo, e melhorou a fibrose em cerca de 37%, contra 22%, tudo medido por biópsia.
Resmetirom. É o primeiro remédio aprovado especificamente para a esteato-hepatite com fibrose. No ensaio MAESTRO-NASH de 2024, resolveu a esteato-hepatite em cerca de 26% a 30% das pessoas, contra 10% com placebo. A indicação é restrita e a decisão é compartilhada com o hepatologista.
O que isso muda na consulta
Quando alguém chega com "esteatose" num laudo, eu não peço outro ultrassom. Pego os exames que a pessoa já tem, calculo o FIB-4 na hora e, em boa parte dos casos, consigo dizer ali se o risco de cicatriz é baixo. Na zona intermediária ou alta, peço a elastografia e, se ela confirmar fibrose, chamo o hepatologista para dividir o cuidado. Em paralelo, trato o que está por trás: glicose, pressão, lipídios, peso, com bioimpedância para saber se o que sai é gordura e não músculo. A gordura volta atrás; a cicatriz, só até certo ponto. O que serve para cada fígado está na página sobre o tratamento e, no fim, numa avaliação individual.
Perguntas frequentes
Esteatose "leve" ou "grau I" é grave?
"Leve" descreve a quantidade de gordura que o ultrassom viu, não o risco. Quem responde isso é o FIB-4 e, se preciso, a elastografia.
Não bebo álcool. Como posso ter gordura no fígado?
Porque a causa mais comum não é o álcool, é o metabolismo. Cintura, glicose, triglicerídeos e pressão alimentam o fígado de gordura mesmo em quem nunca bebeu, e foi por isso que o nome da doença mudou em 2023.
Gordura no fígado tem cura?
A gordura e a inflamação regridem com perda de peso, alimentação, atividade e, quando indicado, medicamento. A fibrose pode regredir em parte, mas quanto mais avançada, menos volta, e por isso o acompanhamento não termina quando o ultrassom normaliza.
Fontes
- Rinella ME, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature. Hepatology, 2023.
- Rinella ME, et al. AASLD Practice Guidance on the clinical assessment and management of nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology, 2023.
- Younossi ZM, et al. The global epidemiology of nonalcoholic fatty liver disease (NAFLD) and nonalcoholic steatohepatitis (NASH): a systematic review and meta-analysis. Hepatology, 2023.
- Sanyal AJ, et al. Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis (ESSENCE). New England Journal of Medicine, 2025.
- Harrison SA, et al. A Phase 3, Randomized, Controlled Trial of Resmetirom in NASH with Liver Fibrosis (MAESTRO-NASH). New England Journal of Medicine, 2024.
- Mann JP, Byrne CD, Targher G. Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease in Children and Adolescents. JAMA, 2026.