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Achei um nódulo na adrenal num exame de rotina. E agora?
Um nódulo na glândula adrenal aparece em até uma em cada dez tomografias depois dos 60 anos. Quase sempre é benigno, mas 'não funcionante' nem sempre quer dizer inofensivo. O que é preciso investigar, uma vez só e bem feito.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
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A tomografia era para investigar uma dor nas costas, ou uma pedra no rim, ou só um check-up. O laudo veio com a frase que ninguém esperava: "nódulo em adrenal direita, de 2 cm, provável adenoma". A pessoa chega ao consultório com duas perguntas na cabeça, "é câncer?" e "o que isso faz comigo?", e com uma terceira que raramente diz em voz alta: "vou ter que viver fazendo exame?". As três têm resposta, e a resposta é mais tranquila do que o susto sugere.
O que são as adrenais e por que elas aparecem nos exames
As adrenais são duas glândulas do tamanho de uma noz, uma em cima de cada rim. Elas produzem cortisol, aldosterona, um pouco de hormônio masculino e adrenalina. Como ficam no meio do abdome, aparecem em qualquer tomografia ou ressonância da região, e é assim que a maioria dos nódulos é descoberta: por acaso. O nome técnico é incidentaloma adrenal.
É um achado comum. Cerca de 4% das pessoas de meia-idade têm um nódulo na adrenal, e depois dos 60 anos a proporção chega a 10%. Em uma de cada cinco pessoas, há nódulo nas duas glândulas.
A primeira pergunta: é câncer?
Quase nunca. Entre 80% e 85% dos nódulos são adenomas, tumores benignos que nasceram na camada externa da glândula e ficarão ali, quietos, pelo resto da vida. O carcinoma da adrenal existe, mas é raro, e costuma se anunciar: é grande, irregular, cresce rápido.
A resposta vem da própria tomografia, desde que feita sem contraste e com cortes finos. O radiologista mede a densidade do nódulo. Adenomas são ricos em gordura e têm densidade baixa; um nódulo homogêneo e com densidade baixa é benigno com segurança, não importa o tamanho, e não precisa de nova imagem. Se a densidade é mais alta ou o nódulo é heterogêneo ou maior que 4 cm, entram exames adicionais, como tomografia com contraste, ressonância ou PET-CT, e uma discussão em equipe. Uma coisa não se faz: biópsia de nódulo suspeito de carcinoma, porque ela não muda a conduta e pode espalhar o tumor.
A segunda pergunta: ele produz hormônio?
Essa é a que mais importa no dia a dia, e a que mais fica sem resposta. Um nódulo benigno pode, mesmo assim, fabricar hormônio por conta própria. Três exames resolvem a maior parte dos casos:
- Teste de supressão com dexametasona. A pessoa toma um comprimido de dose baixa à noite e colhe o cortisol de manhã. Se a adrenal é normal, o cortisol cai quase a zero. Se não cai, o nódulo está produzindo cortisol sozinho.
- Metanefrinas no sangue ou na urina, para afastar o feocromocitoma, um tumor que produz adrenalina e pode causar crises de pressão alta. Entre 1% e 5% dos nódulos achados por acaso são feocromocitomas.
- Aldosterona e renina, só para quem tem pressão alta ou potássio baixo.
Com esses exames, os nódulos se dividem em três grupos: os que não produzem nada, os que produzem cortisol de forma leve e os que produzem hormônio em quantidade que já causa doença. O terceiro grupo é pequeno.
O detalhe que mudou nos últimos anos
Aqui está o ponto que a atualização apresentada no congresso brasileiro de endocrinologia de 2025 mais destacou. O nódulo que produz um pouco de cortisol, sem causar a síndrome de Cushing clássica, tem nome: secreção autônoma leve de cortisol, ou MACS, pela sigla em inglês. Está presente em 20% a 50% dos incidentalomas. E "leve" não quer dizer sem consequência.
Duas grandes revisões recentes juntaram os estudos. A primeira, de 2023, com mais de 17 mil pacientes, mostrou que quem tem MACS tem mais diabetes, mais hipertensão, mais colesterol alterado e uma mortalidade cerca de 50% maior do que quem tem nódulo sem secreção. A segunda, de 2024, com quase 5 mil pessoas, mostrou que até os nódulos rotulados como "não funcionantes" se associam ao dobro de chance de diabetes ou pré-diabetes e a mais hipertensão do que a população sem nódulo.
O osso também entra na conta. Quem tem MACS tem até duas vezes mais fraturas por fragilidade, e as fraturas de vértebra chegam a ser quatro vezes mais comuns, mesmo com densitometria parecida: o cortisol estraga a qualidade do osso antes da quantidade.
Operar ou acompanhar?
A cirurgia fica para o nódulo suspeito de câncer, para o feocromocitoma, para quem tem excesso hormonal com doença clínica e para o nódulo que cresce no acompanhamento. Na secreção leve de cortisol, a decisão é caso a caso: nos estudos, quem operou melhorou mais o açúcar e a pressão, mas a evidência ainda é pequena, e idade, outras doenças e a vontade da pessoa pesam.
Para o nódulo benigno, pequeno e sem secreção, a diretriz europeia de 2023 é direta: não precisa repetir a tomografia, nem repetir o teste de cortisol todo ano. O que se faz é cuidar com rigor da pressão, do açúcar, do colesterol e do osso.
O que isso muda na consulta
Quando alguém chega com esse laudo, eu começo dizendo o que a tomografia já diz: na maioria das vezes, é um adenoma, benigno, e vai continuar benigno. Depois faço a parte que o laudo não faz. Peço o teste de supressão com dexametasona e as metanefrinas; aldosterona e renina, se a pressão é alta. E olho para o resto: glicemia, hemoglobina glicada, pressão, colesterol, densitometria quando a idade ou o cortisol pedem.
O que eu mais quero evitar é o meio-termo ruim: a pessoa que repete tomografia todo ano e nunca fez o exame de cortisol que importava. A avaliação é feita uma vez, bem feita. Se o nódulo é benigno e não secreta, eu digo que ela pode seguir a vida e não vou pedir mais imagem. Se há secreção leve, eu não trato o nódulo, trato o que ele está fazendo com o metabolismo e com o osso, e discuto a cirurgia quando os exames e a história justificam. E a decisão, nesse caso, é dela e minha, juntos.
Perguntas frequentes
Nódulo na adrenal dá sintoma?
Na maioria das vezes, não. Ele é descoberto por acaso justamente porque não incomoda. Quando há sintomas, eles vêm do hormônio em excesso: crises de pressão alta e palpitação no feocromocitoma, hematomas fáceis e fraqueza no excesso de cortisol, pressão difícil de controlar no excesso de aldosterona.
Vou precisar fazer tomografia todo ano?
Se o nódulo é homogêneo, de densidade baixa e menor que 4 cm, não. A diretriz europeia de 2023 dispensa a repetição de imagem nesses casos. Nódulos indeterminados fazem uma nova imagem em 6 a 12 meses para confirmar que não cresceram, e só.
Se o nódulo não produz hormônio, está tudo resolvido?
O nódulo em si, sim. Mas os estudos mostram que mesmo quem tem nódulo "não funcionante" tem mais diabetes e hipertensão, e por isso vale acompanhar o metabolismo como quem sabe que tem um fator de risco a mais. É cuidado, não doença.
Fontes
- Fassnacht M, Tsagarakis S, Terzolo M, et al. European Society of Endocrinology clinical practice guidelines on the management of adrenal incidentalomas, in collaboration with the European Network for the Study of Adrenal Tumors. European Journal of Endocrinology, 2023.
- Pelsma ICM, Fassnacht M, Tsagarakis S, et al. Comorbidities in mild autonomous cortisol secretion and the effect of treatment: systematic review and meta-analysis. European Journal of Endocrinology, 2023.
- Favero V, Parazzoli C, Bernasconi DP, Chiodini I. Cardiometabolic comorbidities and cardiovascular events in "non-functioning" adrenal incidentalomas: a systematic review and meta-analysis. Journal of Endocrinological Investigation, 2024.
- Prete A, Bancos I. Mild autonomous cortisol secretion: pathophysiology, comorbidities and management approaches. Nature Reviews Endocrinology, 2024.