Pular para o conteúdo

Início › Artigos › Emagrecimento e obesidade

Remédios para obesidade em 2026: o que chegou e o que vem

Semaglutida em comprimido aprovada pela Anvisa, dose maior da semaglutida, orforglipron aprovado nos Estados Unidos, retatrutida com 25% de perda na fase 3. Tabela com 12 remédios: como agem, como se usam, quanto peso fizeram perder e onde já foram aprovados.

Autor
Dr. Lucas Moura
Publicado
Leitura
11 min
Fontes
15 referências

Em 4 de novembro de 2026, a Anvisa aprovou a semaglutida em comprimido para obesidade, a primeira versão oral desses remédios no Brasil. Foi a terceira novidade do ano por aqui, depois da dose maior da semaglutida injetável e das primeiras versões nacionais da semaglutida. Lá fora, os Estados Unidos aprovaram um comprimido que dispensa o jejum, e o primeiro estudo de fase 3 de um remédio que age em três hormônios mostrou 25% de perda de peso. Este artigo organiza o que já pode ser prescrito no Brasil, o que ainda está em estudo e como ler os números sem se iludir.

O que mudou em 2026 no Brasil e nos EUA

  • Maio: a Anvisa aprovou uma dose maior da semaglutida injetável semanal, cerca de três vezes a dose habitual para obesidade. Nos Estados Unidos, a aprovação saiu em março.
  • Março a agosto: a patente da semaglutida caiu no Brasil em março, e a primeira versão nacional foi aprovada em agosto. Outras devem seguir.
  • Abril: a FDA, agência dos Estados Unidos, aprovou o orforglipron, um comprimido de GLP-1 que pode ser tomado a qualquer hora, sem jejum. No Brasil, ainda não há aprovação.
  • 4 de novembro: a Anvisa aprovou a semaglutida em comprimido para obesidade. A versão oral já existia para diabetes, em dose menor. Ainda não há data para chegar às farmácias.

Tabela: 12 remédios para obesidade lado a lado

Os números abaixo são a perda média de peso no estudo principal de cada remédio, em pessoas com obesidade ou sobrepeso sem diabetes. Situação em 5 de novembro de 2026.

Remédio Como age Como se usa Perda média de peso EUA (FDA) Brasil (Anvisa)
Liraglutida GLP-1 Injeção diária 8% Aprovada Aprovada
Semaglutida GLP-1 Injeção semanal 15% Aprovada Aprovada
Semaglutida, dose maior GLP-1 Injeção semanal 19% Aprovada em 2026 Aprovada em 2026
Semaglutida em comprimido GLP-1 Comprimido diário, em jejum 14% Aprovada em 2025 Aprovada em novembro de 2026
Tirzepatida GLP-1 e GIP Injeção semanal 21% Aprovada Aprovada
Orforglipron GLP-1, em molécula pequena Comprimido diário, sem jejum 11% Aprovado em 2026 Não aprovado
Cagrilintida com semaglutida Amilina e GLP-1 Injeção semanal 20% Em análise Não aprovado
Retatrutida GLP-1, GIP e glucagon Injeção semanal 25% Fase 3 concluída Não aprovado
Survodutida GLP-1 e glucagon Injeção semanal 13% Fase 3 concluída Não aprovado
Maritide GLP-1 com bloqueio do GIP Injeção mensal 16% Em fase 3 Não aprovado
Amicretina GLP-1 e amilina na mesma molécula Injeção semanal ou comprimido 24% Em fase 3 Não aprovado
Bimagrumabe com semaglutida Anticorpo que poupa músculo, mais GLP-1 Endovenoso a cada 4 semanas, mais injeção semanal 22% Em fase 2 Não aprovado

Os estudos duraram de 36 a 80 semanas (SCALE, STEP 1, STEP UP, OASIS 4, SURMOUNT-1, ATTAIN-1, REDEFINE 1, TRIUMPH-1, SYNCHRONIZE-1, fase 2 da maritide, fase 1b/2 da amicretina e BELIEVE), e quem recebeu placebo perdeu de 2% a 5%. Comparar estudos diferentes tem limite: a duração, a dose máxima e o perfil das pessoas mudam de um para outro. Estudos de fase 2 e de fase 1b/2 são menores e mais curtos, e os números ainda podem mudar quando a fase 3 terminar. A comparação mais justa é a feita dentro do mesmo estudo, como o SURMOUNT-5, que pôs tirzepatida e semaglutida lado a lado e que explico no artigo sobre tirzepatida e semaglutida.

Por que surgiram tantos remédios para obesidade

Os remédios atuais e os que vêm aí imitam hormônios que o próprio corpo produz depois de comer. O GLP-1 e o GIP vêm do intestino e avisam o cérebro que a refeição chegou. O glucagon, do pâncreas, aumenta o gasto de energia e a queima de gordura pelo fígado. A amilina, liberada junto com a insulina, dá saciedade por outra via do cérebro. A pesquisa seguiu uma lógica simples: se ativar um desses receptores ajuda, ativar dois ou três ao mesmo tempo talvez ajude mais. Como cada um age, em detalhe, está no artigo sobre como funcionam os análogos de GLP-1.

O que a Anvisa já aprovou para obesidade

Semaglutida em comprimido

É a mesma molécula da injeção semanal, em comprimido diário. Para ser absorvida, precisa ser tomada em jejum, com pouca água, esperando um tempo antes de comer. No estudo OASIS 4, levou a 14% de perda média em 64 semanas, perto do que a injeção faz. É uma boa opção para quem tem receio de agulha ou dificuldade com a logística da caneta. A desvantagem é a regra diária do jejum, que precisa caber na rotina.

Semaglutida em dose maior

A dose maior da injeção semanal levou a 19% de perda média no estudo STEP UP, contra cerca de 16% da dose habitual no mesmo estudo. Os efeitos digestivos foram um pouco mais frequentes. Serve para quem já usa a semaglutida, tolera bem e ainda não chegou à meta.

Versões nacionais da semaglutida

Com o fim da patente, outros laboratórios podem produzir a semaglutida depois de aprovados pela Anvisa. A molécula é a mesma, com o mesmo controle de qualidade exigido de qualquer remédio registrado. Isso é diferente de produto manipulado ou vendido sem registro, que não tem esse controle.

Liraglutida e tirzepatida

A liraglutida, diária, foi a primeira da classe e tem a menor perda média. A tirzepatida, semanal, age no GLP-1 e no GIP e tem a maior perda entre os aprovados no Brasil: 21% em média no SURMOUNT-1.

Retatrutida, cagrilintida e os remédios que vêm aí

  • Orforglipron. Comprimido que ativa o receptor do GLP-1, mas não é um peptídeo: é uma molécula pequena, que pode ser tomada a qualquer hora, com ou sem comida. Perdeu menos peso do que a semaglutida em comprimido, 11% em média no ATTAIN-1, mas é mais simples de tomar. Aprovado nos Estados Unidos em abril de 2026. Mais detalhes no artigo sobre o orforglipron.
  • Cagrilintida com semaglutida. Junta um análogo da amilina ao GLP-1 numa só aplicação semanal. Perda média de 20% no REDEFINE 1. O pedido de registro foi feito nos Estados Unidos em dezembro de 2025 e está em análise.
  • Retatrutida. Age em três receptores: GLP-1, GIP e glucagon. No TRIUMPH-1, o primeiro estudo de fase 3, a maior dose levou a 25% de perda média em 80 semanas, a maior já vista com remédio. Ainda não há pedido de registro.
  • Survodutida. Age no GLP-1 e no glucagon. Perda média de 13% no SYNCHRONIZE-1. Também é estudada na gordura no fígado com inflamação, onde a via do glucagon pode ajudar.
  • Maritide. Combina um anticorpo que bloqueia o receptor do GIP com o GLP-1. Como o anticorpo dura muito no sangue, a aplicação é mensal. Perda média de 16% em 52 semanas na fase 2; a fase 3 está em andamento.
  • Amicretina. Uma única molécula que age no GLP-1 e na amilina, estudada em injeção e em comprimido. Num estudo pequeno, de 36 semanas, a perda chegou a 24%. É um número a confirmar na fase 3.
  • Bimagrumabe. Anticorpo que bloqueia os sinais que freiam o crescimento do músculo. No estudo BELIEVE, somado à semaglutida, levou a 22% de perda média, contra 16% da semaglutida sozinha, e 93% do peso perdido foi gordura. Ainda está em fase 2.

Como ler notícias sobre remédios novos

  • Aprovado nos Estados Unidos não é aprovado no Brasil. Cada remédio precisa passar pela Anvisa. Até lá, o que é vendido aqui com esses nomes, fora de pesquisa clínica, não tem controle de conteúdo nem de qualidade.
  • Fase 3 concluída não é remédio na farmácia. Entre o fim dos estudos e a prateleira há o pedido de registro, a análise da agência e a produção, o que costuma levar de um a dois anos.
  • Perda média não é promessa individual. A resposta varia de pessoa para pessoa: no mesmo estudo, há quem perca muito mais e quem perca bem menos do que a média.

Remédio mais potente: efeitos colaterais e limites

Não quer dizer que o remédio mais forte é sempre o melhor. Num dos estudos da retatrutida, 18% das pessoas na maior dose pararam o tratamento por efeitos colaterais. Perder 20% ou 25% do peso é perder gordura, mas também músculo e osso, e quanto maior e mais rápida a perda, mais isso pesa. Os efeitos digestivos aumentam com a potência, e esses remédios também pedem cuidado antes de cirurgias e exames com sedação. E em todos eles o peso tende a voltar quando o remédio é suspenso, como explico no artigo sobre reganho de peso ao parar o medicamento.

Também não quer dizer que todo mundo precisa perder 25%. Para muita gente, 10% a 15% já resolvem o que precisa ser resolvido, como mostra o artigo sobre quanto peso perder para a saúde mudar. Perder além do necessário aumenta a perda de músculo sem ganho de saúde.

Minha leitura

Vejo esse conjunto de novidades com entusiasmo e cautela. Entusiasmo porque o comprimido, a aplicação mensal e as versões nacionais vão tornar o tratamento mais fácil de começar e de manter, e manter é o que dá resultado numa doença crônica. Cautela porque remédio mais potente faz perder músculo mais depressa se ninguém estiver olhando, e porque o tratamento é de longo prazo.

Na consulta, a escolha não começa pelo remédio mais novo. Começa pelo quanto de peso precisa ser perdido, pelas doenças associadas, pela tolerância e pela rotina de cada pessoa. O que não muda com nenhum deles: avaliar a composição corporal, garantir proteína suficiente, fazer treino de força, como discuto no artigo sobre perda de massa muscular com remédios para emagrecer, e ter um plano para quando a dose for reduzida.

Perguntas frequentes

A semaglutida em comprimido já está nas farmácias?

Ainda não. A Anvisa aprovou o uso para obesidade em 4 de novembro de 2026, mas a fabricante não informou a data de chegada. A versão em comprimido para diabetes, em dose menor, já era vendida antes.

O comprimido funciona tanto quanto a injeção?

A semaglutida em comprimido chegou perto: 14% de perda média no OASIS 4, contra 15% da injeção semanal no STEP 1. O orforglipron, outro comprimido, ficou em 11%. Na prática, a escolha entre comprimido e injeção pesa também a rotina: o comprimido é diário e, no caso da semaglutida, em jejum.

Já posso usar retatrutida ou orforglipron no Brasil?

Não. Nenhum dos dois tem registro na Anvisa. O orforglipron foi aprovado nos Estados Unidos em abril de 2026; a retatrutida terminou o primeiro estudo de fase 3, mas ainda não teve pedido de registro. Produto vendido com esses nomes fora de pesquisa clínica não tem garantia do que contém.

Vale a pena esperar os novos em vez de tratar agora?

Raramente. A obesidade é uma doença crônica, e adiar o tratamento significa mais tempo exposto aos riscos do peso elevado. Os remédios já aprovados levam a perdas de 15% a 21% em média, o suficiente para a maioria das metas de saúde. Se um remédio novo fizer sentido no futuro, a troca se discute em consulta.

Os novos remédios perdem menos músculo?

Por enquanto, só o bimagrumabe foi pensado para isso, e ainda está em fase 2. Nos demais, a proporção de músculo perdido parece semelhante à dos atuais. Quanto maior a perda de peso, maior a importância da proteína e do treino de força.

Fontes

Dr. Lucas MouraMédico · CRM-SP 125.324
Endocrinologia e Metabologia RQE 36687
Clínica Médica RQE 36686
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta; a conduta é individual.

Próximo em Emagrecimento e obesidadeOrforglipron: o que se sabe sobre o GLP-1 em comprimido
Agendar consulta