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Por que a gente come mais no frio e nas festas: o que a ciência diz sobre o apetite ao longo do ano

Uma revisão de 22 estudos em 12 países mostra que o consumo de calorias sobe no inverno e na primavera e cai no verão, com diferenças de até 500 kcal por dia. Os hormônios, a luz, as festas e o humor por trás disso, e o que fazer com essa informação.

Autor
Dr. Lucas Moura
Publicado
Leitura
4 min
Fontes
3 referências

"No inverno eu como mais" e "dezembro acabou com a minha dieta" são frases que ouço todo ano no consultório, geralmente com culpa. Não precisa. A quantidade que a gente come muda ao longo do ano, e isso tem explicação. Uma revisão publicada na Frontiers in Nutrition em 2023 reuniu 22 estudos de 12 países para entender o que mexe com o apetite estação por estação. Aqui está o que ela diz, e o que fazer com isso.

O apetite tem estação

A metanálise que serve de base para a revisão encontrou um padrão: o consumo de calorias é maior na primavera e no inverno e menor no verão. Os estudos individuais nem sempre concordam, porque clima e cultura variam muito, mas a direção se repete. Em alguns grupos a diferença é grande. Entre idosos na Turquia, os homens comiam 557 kcal a mais por dia no inverno do que nas outras estações, e as mulheres, 343 kcal a mais. É quase uma refeição extra todo dia. Em outras populações, sobretudo em grandes cidades, a variação foi pequena ou inexistente.

Consumo de calorias por estação, esquema
O padrão da metanálise: primavera e inverno mais altos, verão mais baixo. Esquema sem escala, adaptado de Fujihira et al., 2023, com base em Stelmach-Mardas et al., 2016.

O que mexe com a fome

A revisão organiza os fatores em três grupos.

Ambiente. O frio aumenta a grelina, o hormônio que dá fome, e reduz a leptina, o hormônio da saciedade; o calor faz o contrário. Em um experimento, depois de cinco horas e meia a 30 graus, as pessoas comeram menos do que depois do mesmo tempo a 10 ou 20 graus. As horas de luz também contam: menos luz, menos serotonina, e a serotonina participa do controle do apetite e do humor.

Social. Feriados e férias concentram refeições fartas e comer fora de casa. Nos estudos americanos, o ganho de peso de adultos com obesidade se concentrava nas férias de fim de ano, quando a frequência de refeições fora aumenta e a qualidade da alimentação cai.

Corpo. O humor muda com a estação: dias frios e escuros puxam para baixo, e nos dias de humor pior as pessoas comem mais, sobretudo comida calórica e doce. Já a atividade física cai no inverno, com mais tempo sentado em dias de chuva, frio e pouca luz. Menos gasto, e mesmo assim mais fome.

Fatores que influenciam o apetite ao longo do ano
Os cinco fatores da revisão, em três grupos. Redesenhado a partir da figura 1 de Fujihira et al., 2023.

E no Brasil?

Quase todos os estudos vêm do hemisfério norte, onde o frio, a pouca luz e as festas de fim de ano caem juntos no inverno. Aqui eles se separam: o inverno traz o frio e os dias curtos, e dezembro traz o calendário social em pleno verão. Na prática, são dois períodos que merecem atenção, por motivos diferentes. No inverno pesam o clima, a luz e o humor. Em dezembro pesam as ceias, as confraternizações, as férias e o comer fora.

O que isso não quer dizer

Não é desculpa nem culpa. A própria revisão lembra que, em ambientes com temperatura e iluminação controladas, o efeito do clima tende a ser menor, e que os eventos que levam a comer demais dependem da cultura de cada lugar. Também não vale para todo mundo: algumas pessoas comem menos no inverno, por uma forma de depressão ligada à falta de luz, e perdem o interesse pela comida. O que a ciência oferece é informação para planejar, não uma sentença.

O que isso muda na consulta

Eu não peço para o paciente lutar contra o calendário. Peço para conhecer o dele. Quem sabe que come mais no frio ou nas festas planeja antes: mantém a atividade física mesmo nos dias de chuva, cuida do sono e do humor, combina as exceções em vez de improvisar, e olha a balança no conjunto do ano. O peso que sobe em dezembro não precisa virar o peso do ano, e quem está em tratamento para obesidade ajusta o plano com o médico nessas fases, em vez de abandoná-lo.

Perguntas frequentes

É normal engordar no inverno?

Um ganho pequeno é comum e tem explicação hormonal e comportamental. O problema é quando ele se acumula ano após ano sem ser compensado. Conhecer o próprio padrão ajuda a planejar.

Dá para controlar a fome do frio?

Em parte. Manter a atividade física, dormir bem, se expor à luz do dia e organizar as refeições com proteína e fibra ajudam. Em quem está em tratamento para obesidade, o ajuste do plano é feito com o médico.

As festas de fim de ano estragam o tratamento?

Não, se forem planejadas. Uma ou duas ceias não mudam o resultado de meses; o que pesa é a sequência de semanas sem rotina. Combinar as exceções antes e retomar o plano no dia seguinte faz mais diferença do que qualquer restrição.

Fontes

Dr. Lucas MouraMédico · CRM-SP 125.324
Endocrinologia e Metabologia RQE 36687
Clínica Médica RQE 36686
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta; a conduta é individual.

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