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Uso semaglutida ou tirzepatida. Preciso parar antes de uma cirurgia ou endoscopia?
Os remédios da classe do GLP-1 deixam o estômago mais lento, e isso importa quando há sedação ou anestesia. As diretrizes brasileira de 2025 e americana de 2024 dizem quem mantém, quem suspende e por quanto tempo. O que fazer na prática.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
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- 5 min
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"Doutor, marquei a colonoscopia e o gastro mandou parar a caneta uma semana antes. O anestesista disse que não precisava. Quem está certo?" Essa conversa se repete no consultório desde que a semaglutida e a tirzepatida se tornaram comuns. A resposta mudou nos últimos dois anos, e hoje existe uma orientação clara, publicada pela Sociedade Brasileira de Diabetes em 2025 e por cinco sociedades americanas no fim de 2024. Vale entender o que está por trás dela, porque a decisão não é "para todo mundo" nem "para ninguém".
O que a caneta faz com o estômago
O GLP-1 é um hormônio que o intestino solta depois da refeição. Ele avisa o cérebro que a comida chegou, reduz o apetite e, ao mesmo tempo, segura o alimento mais tempo no estômago. Os remédios dessa classe imitam esse hormônio, e a lentidão do estômago faz parte do efeito: é por isso que a pessoa fica satisfeita com menos. A tirzepatida age também no receptor de um segundo hormônio, o GIP, e produz o mesmo atraso.
Esse atraso é maior nas primeiras semanas de uso e a cada aumento de dose, e diminui com o tempo. Depois de três meses na mesma dose, o estômago da maioria das pessoas já se adaptou em boa parte.
Por que isso importa na sedação
Quando a pessoa é sedada ou anestesiada, os reflexos que protegem a via respiratória se desligam. Se houver comida ou líquido no estômago, o conteúdo pode voltar e descer para o pulmão. É a broncoaspiração, um evento raro, mas sério. Os relatos de resíduo gástrico encontrado em endoscopias de pessoas que usavam esses remédios, mesmo depois do jejum habitual, acenderam o alerta em 2023.
Os estudos que vieram depois colocaram o risco em proporção. Uma análise de endoscopias publicada em 2025 mostrou que o resíduo no estômago caiu de 12,7% para 4,4% quando a última aplicação de um remédio semanal tinha sido feita há sete dias ou mais. E mostrou algo que muita gente esquece: quanto mais alta a hemoglobina glicada, mais resíduo. O diabetes descontrolado atrasa o estômago por conta própria.
O que as diretrizes dizem
A diretriz brasileira de 2025 resumiu a conduta em quatro pontos, e a americana segue a mesma lógica:
- Dieta líquida nas 24 horas anteriores a qualquer procedimento com sedação ou anestesia geral, seguida de jejum de 8 a 12 horas.
- Ultrassom do estômago na sala, feito pelo anestesista antes de sedar, sempre que disponível. Ele mostra na hora se há resíduo e permite adiar ou mudar a técnica.
- Manter o remédio em quem está na mesma dose há mais de 12 semanas e não tem fatores de risco para aspiração.
- Suspender por sete dias o remédio semanal (ou por um dia o diário) em quem tem fatores de risco, está aumentando a dose ou ainda não completou 12 semanas na dose atual.
Os fatores de risco são: uso há menos de três meses, sintomas digestivos ativos (náusea, vômito, estufamento, refluxo intenso), diabetes descontrolado, gastroparesia, uso de opioides ou de outros remédios que atrasam o estômago, e histórico de aspiração.
Em resumo: quem usa há bastante tempo, na mesma dose, sem sintomas e com a glicose controlada, não precisa parar. Quem começou há pouco, está subindo a dose ou tem algum fator de risco, para por uma semana.
O que isso muda na consulta
Eu pergunto sobre procedimentos marcados em toda consulta de quem usa esses remédios, e peço que me avisem quando marcarem um novo. Com a data em mãos, faço três coisas. Primeiro, olho há quanto tempo a pessoa está na dose atual e se há algum fator de risco. Segundo, escrevo a orientação, com a data da última aplicação e a decisão de manter ou suspender, para que o anestesista e o médico do procedimento recebam a mesma informação. Terceiro, lembro da dieta líquida de véspera, que vale para todos.
O que eu peço para não fazer é suspender por conta própria. Vejo pacientes com diabetes que pararam a tirzepatida duas ou três semanas antes "por garantia" e chegaram ao exame com a glicose alta, o que também atrasa o estômago e ainda traz outros riscos. Uma semana de suspensão, quando indicada, não desfaz o tratamento, e o remédio volta na mesma dose depois do procedimento. Quando a dúvida persiste, o ultrassom gástrico na sala resolve, e a maioria dos anestesistas hoje o conhece.
Perguntas frequentes
Vou fazer uma tomografia com contraste. Preciso parar?
Não. Exame com contraste sem sedação não exige suspensão. O cuidado é com sedação e anestesia, porque é isso que desliga a proteção da via respiratória. Se a tomografia for feita sob sedação, o que é raro, valem as regras acima.
Uso semaglutida há um ano e vou fazer colonoscopia. Paro?
Se a dose é a mesma há mais de 12 semanas, você não tem sintomas digestivos e a glicose está controlada, a orientação é manter e fazer o preparo com dieta líquida, que a colonoscopia já exige. Avise o anestesista. Se houver qualquer fator de risco, suspende-se a aplicação semanal uma semana antes.
E se eu tiver enjoo ou estufamento na véspera?
Avise antes de ir ao hospital. Sintomas digestivos ativos são um fator de risco para resíduo no estômago, e o anestesista pode preferir fazer o ultrassom gástrico, adiar o procedimento ou mudar a técnica. Não é o fim do mundo, mas precisa ser dito.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes 2025: uso de agonistas do receptor de GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP no preparo de procedimentos cirúrgicos, endoscópicos e com sedação. 2025.
- Kindel TL, Wang AY, Wadhwa A, et al. Multisociety clinical practice guidance for the safe use of glucagon-like peptide-1 receptor agonists in the perioperative period. Surgery for Obesity and Related Diseases, 2024.
- Phan J, Chang P, Issa D, et al. Glucagon-like peptide receptor agonists use before endoscopy is associated with low retained gastric contents: a multicenter cross-sectional analysis. American Journal of Gastroenterology, 2025.
- Alakkad H, Kruisselbrink R, Chin KJ, et al. Point-of-care ultrasound defines gastric content and changes the anesthetic management of elective surgical patients who have not followed fasting instructions. Canadian Journal of Anesthesia, 2015.