Pular para o conteúdo
Dr. Lucas Tadeu Moura Endocrinologia e Clínica Médica

Início › Artigos › Saúde hormonal do homem

Reposição de testosterona e coração: o que o estudo TRAVERSE mostrou

A reposição de testosterona faz mal ao coração? Entenda o que o estudo TRAVERSE revelou sobre risco cardiovascular em homens com hipogonadismo confirmado.

Autor
Dr. Lucas Moura
Publicado
Leitura
4 min
Fontes
3 referências

"A reposição de testosterona faz mal ao coração?" Essa é uma das perguntas mais frequentes de quem recebe o diagnóstico de hipogonadismo e precisa decidir sobre o tratamento. Ela tem fundamento: por anos, houve dúvida genuína sobre a segurança cardiovascular da reposição, alimentada por estudos antigos e por alertas de agências regulatórias. Em 2023, um grande ensaio clínico desenhado justamente para responder a essa pergunta trouxe os dados mais sólidos que temos hoje. Vale entender o que ele mostrou, e o que ele não mostrou.

De onde vinha o medo

Na década de 2010, alguns estudos observacionais e uma análise de dados sugeriram mais eventos cardiovasculares em homens que usavam testosterona. A qualidade dessas evidências era limitada, mas foi suficiente para que agências como a FDA, nos Estados Unidos, incluíssem um alerta nas bulas e pedissem estudos melhores. O problema é que os ensaios disponíveis eram pequenos e curtos demais para medir desfechos como infarto e AVC com segurança. Faltava um estudo grande, longo e bem desenhado. Esse estudo é o TRAVERSE.

O que foi o TRAVERSE

O TRAVERSE foi um ensaio clínico conduzido pela Cleveland Clinic e publicado no New England Journal of Medicine. Ele acompanhou mais de 5 mil homens entre 45 e 80 anos, todos com testosterona baixa confirmada por sintomas e com risco cardiovascular elevado ou doença cardiovascular já conhecida, ou seja, exatamente o grupo sobre o qual havia mais receio.

Esses homens foram sorteados para usar testosterona em gel ou um placebo, e acompanhados por cerca de dois anos. O desenho, chamado de ensaio randomizado, controlado por placebo, é o que permite comparar os dois grupos de forma confiável e atribuir ao tratamento, e não ao acaso, qualquer diferença encontrada.

O resultado principal

O desfecho que o estudo se propôs a medir foi a combinação de eventos cardiovasculares graves: morte por causa cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal. O resultado, segundo a cobertura do ensaio apresentado no congresso ENDO 2023, foi que a reposição não aumentou esses eventos em comparação com o placebo. Em termos técnicos, a testosterona foi considerada não inferior ao placebo quanto à segurança cardiovascular nesse grupo.

Essa é uma informação tranquilizadora para muitos homens com hipogonadismo confirmado e fatores de risco cardíaco, que antes hesitavam em tratar por medo do coração.

O que o estudo também mostrou, e não pode ser ignorado

Um resultado honesto nunca é só a manchete. O TRAVERSE encontrou, no grupo tratado, mais casos de três situações: fibrilação atrial (uma arritmia do coração), embolia pulmonar (coágulo no pulmão) e lesão renal aguda. Esses achados não anulam a segurança quanto a infarto e AVC, mas lembram que a reposição não é isenta de riscos e exige acompanhamento.

Na prática, isso significa que o tratamento é uma decisão individual, que pesa benefícios e riscos de cada homem, e não uma indicação automática para quem tem o exame baixo.

O que o TRAVERSE não mostrou

É importante dizer o que o estudo não avaliou. Ele não testou testosterona em homens sem hipogonadismo, nem para ganho de massa muscular, desempenho esportivo ou estética. Todos os participantes tinham deficiência confirmada e indicação para tratar. Portanto, o resultado não autoriza, de forma alguma, o uso do hormônio por quem tem testosterona normal e busca mais energia ou mais músculo. Esse uso continua vedado pela Resolução CFM nº 2.333/2023 e traz riscos reais, sem o benefício que existe apenas para quem tem deficiência.

O estudo também não é uma garantia individual. Ele mostra o comportamento médio de um grande grupo; o seu caso depende da sua história, das suas condições e do acompanhamento ao longo do tempo.

Como isso entra na consulta

Para o homem com hipogonadismo confirmado, o TRAVERSE deu mais segurança para conversar sobre reposição, mesmo diante de fatores de risco cardíaco. Mas a decisão continua sendo tomada caso a caso. Antes de iniciar, avaliam-se o hematócrito, o PSA, a história cardiovascular e os planos de ter filhos. Durante o tratamento, esses parâmetros são monitorados periodicamente. A ciência atualizada serve para informar essa conversa, não para substituí-la.

Perguntas frequentes

Então a reposição de testosterona é segura para o coração?

Para homens com hipogonadismo confirmado, o TRAVERSE mostrou que a reposição não aumentou infarto, AVC e morte cardiovascular em comparação com placebo, mesmo em quem tinha risco cardíaco elevado. Ao mesmo tempo, houve mais arritmia, embolia pulmonar e lesão renal no grupo tratado, o que exige acompanhamento. Segurança não é sinônimo de ausência de risco.

Esse resultado vale para quem quer usar testosterona para ganhar músculo?

Não. Todos os participantes do estudo tinham deficiência de testosterona confirmada. O TRAVERSE não avaliou, e não respalda, o uso em homens com níveis normais para fins estéticos, de desempenho ou de massa muscular, uso que é vedado pelo CFM.

Tenho um problema de coração. Posso fazer reposição?

É uma decisão individual. O estudo incluiu homens com risco cardiovascular e doença cardíaca, o que torna a conversa mais segura, mas cada caso exige avaliação completa e acompanhamento. Isso é definido em consulta, não por regra geral.

Fontes

Dr. Lucas MouraMédico · CRM-SP 125.324
Endocrinologia e Metabologia RQE 36687
Clínica Médica RQE 36686
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta; a conduta é individual.

Próximo em Saúde hormonal do homemTestosterona, próstata e fertilidade: mitos e cuidados
Agendar consulta