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Colina na gravidez: o estudo dos 8 pontos de QI
Um ensaio da Universidade do Colorado deu fosfatidilcolina ou placebo a 206 gestantes e testou os filhos aos 4 anos: QI médio de 106 contra 98. O resultado é promissor, mas um terço das mães saiu do estudo, a dose foi alta e metade das crianças não fez o teste. O que muda, por enquanto, é não deixar a gestante em falta.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
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"Suplemento na gravidez que promete 8 pontos de QI" foi a manchete que chegou ao consultório nesta semana, trazida por gestantes e por quem planeja engravidar. A pergunta é sempre a mesma: devo tomar? A resposta honesta passa por ler o estudo inteiro, não só o número do título. Ele tem resultados que impressionam e limitações que os próprios autores reconhecem e que a manchete deixou de fora.
O que é colina e por que ela importa na gestação
Colina é um nutriente parecido com as vitaminas do complexo B. Ela entra na construção das membranas das células e na formação da acetilcolina, um neurotransmissor ligado à memória e à atenção. Na gravidez, a demanda sobe, porque o cérebro do bebê se forma com ela.
A ingestão adequada na gestação é de 450 mg por dia. As fontes principais são ovo (a gema concentra), carne, fígado, peixe e, em menor quantidade, leguminosas e algumas verduras. Dois ovos cobrem mais da metade do que uma gestante precisa num dia.
O problema, documentado na revisão de Korsmo e colaboradores em 2019, é que a maioria das gestantes come menos do que isso, e a maioria dos polivitamínicos pré-natais traz pouca ou nenhuma colina. Muita gente fica abaixo da referência sem perceber.
O estudo: 206 gestantes, 9 g por dia, filhos testados aos 4 anos
O ensaio foi publicado on-line em 19 de outubro de 2026 no American Journal of Obstetrics and Gynecology, por Hunter, Hoffman, Freedman e colaboradores, da Universidade do Colorado (registro NCT03028857). Entraram 206 gestantes, sorteadas a partir da 16ª semana para receber 9 g por dia de fosfatidilcolina, a forma da colina presente no ovo e na carne, ou placebo, até o parto. Os filhos foram acompanhados até os 4 anos de idade.
Os resultados principais aos 4 anos:
- QI médio de 106 no grupo da colina contra 98 no grupo do placebo. Foram testadas 103 crianças, cerca de metade das que nasceram no estudo.
- Retraimento social elevado em 4% das crianças do grupo da colina contra 24% no placebo, em 142 crianças, a partir de um questionário de comportamento respondido pelos pais.
- Problemas de atenção, que eram o outro desfecho principal do estudo, não mudaram entre os grupos.

O que o estudo não mostra
Os autores listam as limitações, e elas pesam.
Um terço das mães saiu do estudo antes do fim, e as que ficaram tinham mais escolaridade do que as que saíram. Como escolaridade materna é um dos fatores que mais se associam ao QI dos filhos, a comparação final pode ter ficado desequilibrada por motivos que não têm a ver com a colina.
O QI foi medido em 103 crianças, metade do total. Quanto menor o grupo que chega ao teste, maior a chance de a média se mover por acaso ou pelo perfil de quem ficou.
O retraimento social veio de questionário respondido pelos pais, não de avaliação direta. As participantes eram, em sua maioria, brancas e com escolaridade alta, e o resultado não se transfere automaticamente para outras populações.
A dose foi alta, muito acima da ingestão adequada, e os próprios autores sugerem dose menor nos próximos estudos. A dieta das mães não foi medida em detalhe. E é um único ensaio: resultado de um estudo só é hipótese forte até que outro grupo o repita.
O que já se sabia antes
O estudo do Colorado não surgiu do nada. Um ensaio menor da Universidade Cornell, de Bahnfleth e colaboradores, publicado em 2022, acompanhou até os 7 anos filhos de gestantes que receberam colina em dose maior ou menor: o grupo de dose maior manteve a atenção sustentada por mais tempo numa tarefa de concentração. O número de crianças era pequeno, mas a direção era a mesma.
A revisão de Korsmo, de 2019, concluiu que a colina na gestação tem base biológica sólida para influenciar o desenvolvimento do cérebro e que a maior parte das gestantes consome menos do que a referência. A falta é comum e provavelmente importa. O que não está provado é que uma dose alta, por cima de uma dieta adequada, acrescente alguma coisa.
O que isso muda na consulta
Na consulta de quem está grávida ou planejando engravidar, eu passei a perguntar de colina do mesmo jeito que pergunto de ferro e ácido fólico. A primeira medida é garantir que a gestante não esteja em falta: ovo na rotina, carne ou peixe, leguminosas, e um pré-natal que traga colina na fórmula, porque muitos não trazem. Isso tem base e não tem risco.
O que eu não faço é prescrever 9 g por dia por causa de uma manchete. A dose do estudo é experimental, os autores pedem dose menor nos próximos ensaios e não existe recomendação de nenhuma sociedade médica para megadose. Qualquer suplemento na gestação, inclusive esse, é decisão conjunta com o obstetra que acompanha o pré-natal. Quem quiser ver como isso se encaixa no restante dos exames e da alimentação pode ler o artigo sobre suplementação na gravidez e a página de nutrição e diabetes na gestação.
Perguntas frequentes
Devo tomar colina na gravidez?
Toda gestante precisa de colina, e a referência de ingestão é 450 mg por dia. A maioria consegue isso com ovo, carne, peixe e leguminosas, somados a um pré-natal que traga colina. Se a dieta exclui esses alimentos, vale conversar com o obstetra ou com o endocrinologista sobre como cobrir a diferença.
O suplemento do estudo aumenta o QI do bebê?
O ensaio do Colorado encontrou 8 pontos a mais de QI aos 4 anos, mas com metade das crianças testadas, um terço das mães fora do estudo e dose muito acima da referência. É um resultado que precisa ser repetido antes de virar recomendação. Hoje, ninguém pode prometer isso.
Ovo na gravidez é seguro?
Sim, desde que bem cozido. A gema é a fonte mais prática de colina na alimentação comum. Quem tem restrição alimentar deve ver com o médico como substituir.
Fontes
- Hunter SK, Hoffman MC, Law AJ, Christians U, D'Alessandro A, Freedman R. Prenatal Maternal Phosphatidylcholine and Children's Behavior and Cognition through 4 Years of Age: Randomized Clinical Trial. American Journal of Obstetrics and Gynecology, 2026.
- Bahnfleth CL, et al. Prenatal choline supplementation improves child sustained attention: a 7-year follow-up of a randomized controlled feeding trial. FASEB Journal, 2022.
- Korsmo HW, et al. Choline: Exploring the Growing Science on Its Benefits for Moms and Babies. Nutrients, 2019.