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Vitamina K2 e cálcio nas artérias: o que o estudo DANCODE mostrou, e o que não mostrou
Em 2026, um ensaio clínico publicado na Circulation testou vitamina K2 com D3 em 398 pessoas com calcificação grave das coronárias. O cálcio progrediu menos. Isso não é o mesmo que prevenir infarto. O que o estudo diz, para quem vale e o que perguntar antes de comprar o frasco.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
- Publicado
- Leitura
- 6 min
- Fontes
- 3 referências

"Vitamina K2 limpa as artérias?" é uma pergunta que chega ao consultório com frequência, quase sempre depois de um vídeo ou de um frasco já comprado. Até 2026 a resposta honesta era "a teoria é boa, a prova não existe". Em agosto de 2026, a revista Circulation publicou o maior ensaio clínico já feito sobre o tema, o DANCODE, e a resposta mudou um pouco. Vale entender exatamente o quanto, porque o estudo é bom e as conclusões que circulam sobre ele, nem sempre.
Por que o cálcio nas coronárias importa
As artérias que irrigam o coração acumulam placas ao longo da vida. Parte dessas placas calcifica, e a tomografia sem contraste consegue medir esse cálcio e resumi-lo num número, o escore de cálcio (escore de Agatston). Quanto maior o escore, maior o risco de infarto nos anos seguintes. E quanto mais rápido o escore sobe, pior.
A vitamina K2 entrou nessa história por um mecanismo plausível: ela ativa uma proteína da parede dos vasos, a MGP, que inibe o depósito de cálcio. Quem tem pouca vitamina K ativa tem mais dessa proteína na forma inativa, e estudos de população associaram isso a mais calcificação. Daí ao suplemento foi um passo curto. Daí à prova de que o suplemento funciona, um passo bem mais longo.
O que foi o DANCODE
O DANCODE (Danish Coronary Decalcification) foi um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, feito em vários centros da Dinamarca. Entraram 398 pessoas com calcificação grave das coronárias, definida como escore de cálcio de 400 ou mais; a mediana foi de 903, e 44% tinham 1.000 ou mais. A idade mediana era de 71 anos e 30% eram mulheres. Metade recebeu vitamina K2 na forma MK-7 em dose alta, junto com vitamina D3, todos os dias por dois anos. A outra metade recebeu placebo. Todos fizeram tomografia no início, em 12 e em 24 meses.

O que o estudo mostrou
O cálcio subiu nos dois grupos, porque a doença não para. Mas subiu menos em quem tomou as vitaminas: 196 pontos, contra 248 pontos com placebo. A diferença, de 52 pontos, equivale a cerca de 21% menos progressão, e o intervalo de confiança não cruzou o zero. O efeito foi parecido em homens e mulheres e nos dois níveis de calcificação (de 400 a 999 e de 1.000 para cima).
Um detalhe importante responde a uma objeção antiga. Havia o temor de que frear a calcificação deixasse a placa "mole", que é a que rompe e causa infarto. Em 143 participantes que fizeram também angiotomografia, o volume de placa não calcificada não mudou entre os grupos, e o volume de placa calcificada cresceu menos com as vitaminas. Ou seja, o freio no cálcio não veio acompanhado de mais placa perigosa.
O que o estudo não mostrou
Aqui mora a diferença entre um bom estudo e uma boa manchete.
- Não mediu infarto, AVC nem morte. O desfecho foi o cálcio na tomografia, um marcador. Marcador que melhora não garante evento que diminui: as estatinas, por exemplo, aumentam o escore de cálcio e reduzem infartos, porque estabilizam a placa. Reduzir a progressão do cálcio é promissor; provar que isso evita infarto exige outro estudo, maior e mais longo.
- Não separa a K2 da D3. As duas foram dadas juntas. Não dá para saber se o efeito é da K2, da D3 ou da combinação.
- Não vale para artérias normais. Todos tinham calcificação grave e idade avançada. Nada no estudo sustenta tomar K2 "para prevenir" em quem tem escore zero ou baixo.
- A dose não é a do frasco comum. A dose de K2 testada foi alta, muito acima da que aparece na maioria dos suplementos vendidos. Um resultado obtido com uma dose não se transfere automaticamente para outra.
Há ainda um contexto que pouca gente conta. O mesmo grupo dinamarquês havia publicado em 2022 o ensaio AVADEC, com 365 homens com calcificação da válvula aórtica, usando a mesma combinação por dois anos. O resultado foi negativo: a válvula e as coronárias calcificaram no mesmo ritmo com ou sem vitaminas. Só um subgrupo, o dos homens com cálcio coronário já alto, pareceu responder. O DANCODE foi desenhado para testar justamente esse subgrupo, e confirmou o sinal. Isso é ciência bem feita. Mas um resultado positivo que nasce de um subgrupo de um estudo negativo pede confirmação por outro grupo, em outra população, antes de virar recomendação.
Antes de comprar o frasco
Alguns pontos práticos, para quem já está com o produto no carrinho:
- Anticoagulante. Quem usa varfarina não pode tomar vitamina K em suplemento: ela anula o efeito do remédio e pode causar trombose. Os anticoagulantes mais novos não têm essa interação, mas a conversa com quem prescreveu continua obrigatória.
- O que já tem prova. Para quem tem escore de cálcio alto, o que reduz infarto, com décadas de evidência, é estatina, controle da pressão, da glicose e do peso, parar de fumar e se mover. A vitamina K2, se entrar, entra depois disso, nunca no lugar.
- Vitamina D. No DANCODE ela veio junto, em dose moderada. Isso não é argumento para dose alta de vitamina D por conta própria, que tem riscos próprios, como explico no artigo sobre quem precisa repor vitamina D.
- Escore zero ou baixo. Não há nada a ganhar. O estudo não incluiu essas pessoas e o mecanismo não se aplica a quem não está calcificando.
O que isso muda na consulta
Eu leio o DANCODE como o melhor dado que já tivemos sobre vitamina K2 e artérias, e como um dado honesto: freou o cálcio, não provou que evita infarto. Para o paciente com escore de cálcio alto, ele entra na conversa, ao lado da estatina, do anticoagulante que ele usa e das outras condições que carrega. Não entra como receita de prateleira. Para quem está bem, com artérias sem cálcio, é mais um frasco sem motivo, e eu digo isso com a mesma tranquilidade com que digo que suplemento sem exame é hábito, não tratamento. A decisão é individual e passa pela consulta.
Perguntas frequentes
Devo tomar vitamina K2 para proteger o coração?
Não há prova de que a vitamina K2 proteja o coração de infarto ou AVC. O DANCODE mostrou que, em pessoas com calcificação grave, K2 com D3 reduziu a progressão do cálcio na tomografia em cerca de 21% em dois anos. Isso é um marcador, não um desfecho. Para quem tem artérias sem cálcio, não há motivo para tomar.
Tenho escore de cálcio alto. A vitamina K2 substitui a estatina?
Não. A estatina tem prova de reduzir infarto em quem tem placa coronária; a vitamina K2 tem prova de frear o cálcio na tomografia. São coisas diferentes. Se a K2 entrar, entra como acréscimo discutido com quem acompanha você, nunca como substituição.
Uso anticoagulante. Posso tomar K2?
Se o anticoagulante for varfarina, não: a vitamina K anula o efeito do remédio. Com os anticoagulantes mais novos a interação não existe, mas a decisão continua sendo de quem prescreveu, com a sua história na mão.
Fontes
- Hasific S, Øvrehus KA, Mejldal A, et al. Vitamin K2 and D3 Supplementation in Patients With Severe Coronary Artery Calcification: The DANCODE Trial. Circulation, 2026.
- Diederichsen ACP, Lindholt JS, Möller S, et al. Vitamin K2 and D in Patients With Aortic Valve Calcification: A Randomized Double-Blinded Clinical Trial (AVADEC). Circulation, 2022.
- Registro do ensaio DANCODE, ClinicalTrials.gov NCT05500443.