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Síndrome dos ovários policísticos (SOP): o que mudou no diagnóstico e no tratamento com a diretriz internacional de 2023
A SOP atinge cerca de 1 em cada 8 a 10 mulheres e ainda é confundida com 'ter cistos no ovário'. A diretriz internacional de 2023 mudou o diagnóstico, trouxe o AMH como critério e colocou o metabolismo e a saúde mental no centro do cuidado: o que isso significa para quem procura SOP sintomas, SOP engorda ou SOP tem cura.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
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- 6 min
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"SOP engorda?", "SOP tem cura?", "SOP sintomas": são as buscas de quem acabou de ouvir essa sigla num ultrassom ou numa consulta apressada. A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é a alteração hormonal mais comum da mulher em idade reprodutiva, atinge cerca de 1 em cada 8 a 10, e ainda assim é das condições mais mal explicadas que vejo no consultório. Em 2023, uma diretriz internacional baseada em evidência, coordenada por Teede e colaboradores, reorganizou o diagnóstico e o tratamento. Muita coisa que se repete por aí já não é assim.
O que é a SOP, de fato
A SOP é uma condição hormonal e metabólica, não uma doença só do ovário. Ela se apresenta por uma combinação de três achados:
- Ciclos irregulares, por ovulação rara ou ausente: menstruações espaçadas, que faltam por meses ou são imprevisíveis.
- Excesso de androgênios, os hormônios masculinos que toda mulher produz em pequena quantidade. Aparece como pelos grossos em áreas típicas do homem (hirsutismo), acne persistente na vida adulta e queda de cabelo no topo da cabeça, ou como valor alto no sangue.
- Ovários com muitos folículos no ultrassom, o "ovário policístico" do laudo. Os "cistos" são folículos pequenos que não chegaram a ovular.
Bastam dois dos três, desde que outras causas parecidas tenham sido excluídas: alterações da tireoide, excesso de prolactina, hiperplasia adrenal e, raramente, tumores produtores de androgênio. Daí algo que muita mulher nunca ouviu: ultrassom com "ovário policístico" sozinho não é SOP. Sem ciclo irregular e sem sinal de androgênio, o laudo é só um laudo.
O que a diretriz de 2023 mudou no diagnóstico
O hormônio antimülleriano (AMH) pode substituir o ultrassom. O AMH é produzido pelos folículos pequenos do ovário. Em adultas, a diretriz aceita o AMH elevado no lugar do ultrassom como critério, o que evita o exame transvaginal em quem prefere não fazê-lo. O AMH não diagnostica sozinho: continua sendo um dos três critérios.
O ultrassom não serve para diagnosticar quem está a menos de 8 anos da primeira menstruação. Nessa fase, ovários com muitos folículos são o esperado, e o exame geraria diagnósticos falsos. Nessa janela, o diagnóstico depende de ciclo irregular e excesso de androgênios; quando o quadro é incompleto, a recomendação é reavaliar, não rotular.
A SOP passou a ser tratada como condição metabólica e de saúde mental, não só reprodutiva. Mulheres com SOP têm mais resistência à insulina, pré-diabetes, diabetes tipo 2, alterações do colesterol e apneia do sono, independentemente do peso. Por isso a recomendação é rastrear glicose e colesterol em todas, magras ou não. Ansiedade, depressão e sofrimento com a imagem corporal também são mais frequentes e fazem parte do cuidado.
Tratamento em camadas, não um remédio só
Não existe "o remédio da SOP". O tratamento é montado em camadas, conforme o que incomoda e o que o exame mostra.
Estilo de vida é a base. Alimentação, atividade física e sono vêm primeiro, para todas. A diretriz derruba a cobrança punitiva de peso: a meta é hábito que se sustente, não um número na balança. Em quem tem excesso de peso, perder de 5% a 10% já melhora os ciclos e reduz os androgênios.
Anticoncepcional combinado (estrogênio com progestagênio) é a primeira escolha para regularizar o ciclo e reduzir pelos e acne. Para hirsutismo, a diretriz da Endocrine Society de 2018 acrescenta um antiandrogênio quando a resposta, após alguns meses, não basta. Explico isso na página sobre excesso de pelos e hiperandrogenismo.
Metformina entra pela via metabólica: ajuda em quem tem resistência à insulina, pré-diabetes ou peso elevado, e pode ser combinada ao anticoncepcional. Não é remédio de emagrecimento nem substitui a mudança de hábitos. Escrevi sobre resistência à insulina, como se mede e se tem volta e sobre pré-diabetes, se dá para reverter.
Inositol aparece muito em redes sociais. A diretriz classifica a evidência como limitada: pode ser considerado, mas não substitui metformina nem anticoncepcional, e a qualidade dos produtos varia.
Para engravidar, o letrozol é a primeira escolha para induzir a ovulação, à frente do clomifeno. As etapas seguintes têm lugar definido, sempre com acompanhamento especializado.
Medicamentos para obesidade podem entrar em quem tem obesidade associada, com avaliação individual e atenção à contracepção durante o uso.
O que a SOP não é
Boa parte do sofrimento que chega ao consultório vem de ideias erradas.
- Não é "ter cistos". O nome é histórico e enganoso. Não há cistos a retirar.
- Não é infertilidade garantida. A maioria das mulheres com SOP engravida, com ou sem ajuda. A ovulação irregular dificulta, mas tem tratamento.
- Não é sentença de ganho de peso. O excesso de peso é mais comum, mas muitas mulheres com SOP têm peso normal. Nelas, o risco metabólico existe do mesmo jeito.
- Não é só pele e pelo. Acne e hirsutismo são a parte visível. O que define o cuidado a longo prazo é o metabolismo, o ciclo, a fertilidade quando desejada e a saúde mental.
O que isso muda na consulta
Eu recebo muitas mulheres com "SOP" escrito num laudo de ultrassom e nada mais, e outras com ciclos irregulares, pelos e acne há anos que nunca ouviram a palavra. Nos dois casos, o primeiro passo é o mesmo: confirmar ou afastar o diagnóstico pelos critérios, com história, exame físico e dosagens hormonais, excluindo as outras causas. Confirmado, eu olho o metabolismo de todas, inclusive das magras: glicose, insulina, colesterol e, quando há ronco ou sono ruim, investigação de apneia. Pergunto sobre humor, ansiedade e relação com a comida. Só então monto as camadas: hábitos, anticoncepcional ou metformina conforme a queixa, e um plano próprio para quem quer engravidar. Não há duas SOP iguais, e o tratamento certo depende da avaliação individual.
Perguntas frequentes
SOP tem cura?
Não existe cura no sentido de tratar uma vez e esquecer, mas existe controle. Ciclos, pelos, acne e metabolismo respondem ao tratamento, e a ovulação pode ser restaurada. Com acompanhamento, vira uma condição administrada, não um limite.
SOP engorda?
A SOP favorece a resistência à insulina, o que facilita o ganho de peso e dificulta a perda. Não é um destino: muitas mulheres com SOP têm peso normal, e quem tem excesso de peso responde a mudanças de hábito e, quando indicado, a medicação.
Meu ultrassom mostrou ovário policístico. Tenho SOP?
Não necessariamente. O aspecto policístico é comum em mulheres jovens saudáveis. Para ser SOP é preciso ter também ciclo irregular ou sinais de excesso de androgênios, com outras causas afastadas. Um laudo isolado pede avaliação, não diagnóstico.
Fontes
- Teede HJ, et al. Recommendations From the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2023.
- Martin KA, et al. Evaluation and Treatment of Hirsutism in Premenopausal Women: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2018.