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Excesso de pelos na mulher: o que o corpo está dizendo e como se investiga

Pelo grosso no rosto, na barriga ou nas costas atinge até 1 em cada 5 mulheres e quase sempre é síndrome dos ovários policísticos. Uma revisão de 2026 mostra quando a causa é outra, quais exames usar e os sinais que pedem investigação de tumor.

Autor
Dr. Lucas Moura
Publicado
Leitura
5 min
Fontes
3 referências

Pelo grosso e escuro no queixo, no buço, no peito, na barriga ou nas costas é um dos motivos mais comuns que trazem uma mulher ao endocrinologista, e um dos que mais carregam vergonha. Não deveria. É um sinal do corpo, e sinal se investiga. Uma revisão publicada em setembro de 2026 na Endocrinology and Metabolism Clinics of North America organiza como essa investigação deve ser feita. Aqui está o que ela diz, em linguagem simples.

O que é excesso de hormônio masculino

Toda mulher produz hormônios masculinos, em pequena quantidade, nos ovários e nas glândulas adrenais. Quando essa produção passa do ponto, o primeiro lugar em que o excesso aparece é a pele: pelo grosso nas áreas que respondem a esses hormônios (o chamado hirsutismo), acne persistente na metade de baixo do rosto e cabelo que rareia no alto da cabeça. Menstruação irregular e dificuldade para engravidar completam o quadro. Em casos raros e graves, a voz engrossa, os músculos crescem e o clitóris aumenta.

A revisão lembra que o problema é frequente: pelo menos 10% das mulheres em idade fértil, e até 20% pelas estimativas mais recentes. Depois da menopausa, a frequência é parecida.

As causas mudam com a menopausa

Causas do excesso de hormônio masculino antes e depois da menopausa
Antes da menopausa, a síndrome dos ovários policísticos domina. Depois, a hipertecose e os tumores respondem pelos casos patológicos. Redesenhado a partir das figuras 1 e 2 de Grennan e Chang, 2026, com dados de Azziz et al., 2004, e Sharma et al., 2018.

Antes da menopausa, mais de 80% dos casos são síndrome dos ovários policísticos. Cerca de 8% são pelos sem alteração hormonal, em que a pele é mais sensível ao hormônio normal. Perto de 2% são hiperplasia adrenal congênita, uma condição de nascença das glândulas adrenais. E menos de 1% são tumores do ovário ou da adrenal que produzem androgênio. Raros, mas a cirurgia cura, e é por isso que a investigação existe.

Depois da menopausa, a síndrome dos ovários policísticos deixa de ser diagnóstico. Quando o excesso de hormônio é patológico nessa fase, a causa mais comum é a hipertecose ovariana, um crescimento das células do ovário que produzem androgênio, seguida dos tumores. Por isso, pelo que aparece ou piora depois da menopausa sempre pede investigação.

Os sinais de alerta

O que separa a síndrome dos ovários policísticos de uma causa grave não é a quantidade de pelo, é a velocidade e a companhia. Pelo que surge devagar, desde a adolescência, com menstruação irregular, é o padrão da síndrome. Pelo que avança em poucos meses, voz que engrossa, músculo que cresce, clitóris que aumenta ou sintomas que começam depois da menopausa não combinam com ela e levam a procurar tumor. Rosto arredondado e avermelhado, estrias largas e roxas e hematomas fáceis apontam para excesso de cortisol, a síndrome de Cushing, que também causa pelos a mais.

Os exames certos

A revisão é enfática num ponto: a testosterona precisa ser dosada pela manhã e pelo método de espectrometria de massas. O exame comum, por imunoensaio, superestima ou subestima a testosterona nas concentrações baixas da mulher, e muita investigação começa errada por causa dele. O segundo exame é o DHEA-S, que reflete as adrenais.

Antes da menopausa, entram ainda a 17-hidroxiprogesterona de manhã, para rastrear a hiperplasia adrenal congênita, o TSH, a prolactina e o teste de gravidez. Os valores que indicam investigação de causa patológica são diferentes antes e depois da menopausa: o limite da testosterona é mais baixo na mulher mais velha, porque a produção cai com a idade.

Caminho simplificado da investigação do excesso de pelos
O caminho da investigação, simplificado: conversa e dois exames de sangue, depois os ramos antes e depois da menopausa. Redesenhado a partir da figura 4 de Grennan e Chang, 2026.

Os exames de imagem vêm depois do sangue, não antes. Ultrassom dos ovários quando a testosterona ultrapassa o limite; tomografia das adrenais quando o DHEA-S está muito alto ou os testes de cortisol se alteram. Um detalhe que a revisão destaca: na mulher depois da menopausa, um ultrassom descrito como "normal" não exclui hipertecose, porque o ovário dessa fase deveria ser pequeno, e um volume acima do esperado já é suspeito.

O tratamento

Depende da causa, da idade, da intensidade e do desejo de engravidar. Na síndrome dos ovários policísticos em quem não está tentando engravidar, o contraceptivo combinado costuma ser a primeira opção, porque reduz a produção de androgênio pelos ovários. Se a resposta for incompleta depois de uns seis meses, um antiandrogênio pode ser associado para pelos e acne, sempre com contracepção confiável, porque esses remédios podem afetar o feto. Quando há obesidade ou resistência à insulina, tratar o peso e o metabolismo entra junto, mas a revisão é clara: isso sozinho não resolve o excesso de hormônio.

Na hipertecose e nos tumores, a cirurgia costuma ser diagnóstica e curativa. E se os exames não normalizam com o tratamento, a investigação é retomada.

O que isso muda na consulta

Mulher que chega com pelo no queixo, acne e menstruação atrasada quase sempre tem síndrome dos ovários policísticos, e ela se trata. Mesmo assim, eu peço os exames pelo método certo e faço as perguntas de alerta, porque o 1% que é tumor se cura com cirurgia e não pode passar batido. E investigo a resistência à insulina junto, porque ela anda com a síndrome. Depilação trata o pelo. A consulta trata a causa.

Perguntas frequentes

Depilação a laser resolve o excesso de pelos?

Resolve o pelo que já existe, não a causa. Sem tratar o excesso de hormônio, o pelo volta. O ideal é tratar a causa e, em paralelo, cuidar do pelo com o método que a paciente preferir.

Qual exame de testosterona devo fazer?

Testosterona total pela manhã, pelo método de espectrometria de massas (LC-MS/MS). O imunoensaio comum erra nas concentrações baixas da mulher. Vale conferir com o laboratório qual método é usado.

Pelo a mais depois da menopausa é normal?

Um aumento discreto pode acontecer, mas pelo novo ou que piora depois da menopausa sempre merece avaliação, porque nessa fase as causas mudam e incluem a hipertecose e os tumores, que têm tratamento cirúrgico.

Fontes

Dr. Lucas MouraMédico · CRM-SP 125.324
Endocrinologia e Metabologia RQE 36687
Clínica Médica RQE 36686
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta; a conduta é individual.

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