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Osteoporose: por quanto tempo tratar, e por que alguns remédios não se interrompem
A osteoporose é crônica e o tratamento hoje tem meta. Quando é possível uma pausa do bisfosfonato, por que o denosumabe nunca é simplesmente suspenso e o que muda quando a fratura é recente.
- Autor
- Dr. Lucas Moura
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Uma mulher de 68 anos chega ao consultório com a densitometria na mão e uma pergunta: usa remédio para osteoporose há cinco anos, o exame melhorou, pode parar? A resposta honesta é "depende de qual remédio e de qual meta", e ela resume o que mudou no tratamento da osteoporose nos últimos anos. Vale entender, porque a osteoporose é silenciosa até a primeira fratura, e o jeito de parar um remédio pode fazer tanta diferença quanto o jeito de começar.
Osteoporose é crônica, e agora tem meta
O osso vivo se renova o tempo todo: células retiram osso velho, outras formam osso novo. Na osteoporose, a retirada ganha, o osso fica poroso e quebra com traumas pequenos. É uma doença crônica, como a hipertensão. O remédio controla, não cura, e a pergunta "até quando" precisa de uma referência para ser respondida.
Essa referência chegou em 2024. Uma força-tarefa das duas maiores sociedades de osso dos Estados Unidos (ASBMR e BHOF) propôs tratar a osteoporose com alvo, como se faz com a pressão arterial. A medida escolhida é o T-score do fêmur total na densitometria, porque é a que melhor prevê fraturas. Quem começa com T-score igual ou abaixo de -2,5 deve ao menos ultrapassar esse valor, e o ideal é chegar a -2,0 ou melhor. Quem começa acima de -2,5 deve ganhar cerca de 3% de densidade no fêmur e 6% na coluna. E ninguém deve ter fratura nova. O documento fecha com uma frase que gosto de repetir: tratar osteoporose sem meta é como pilotar sem destino.
Fratura depois dos 50 é um alarme
Quebrar um osso depois dos 50 anos numa queda da própria altura, ou menos, nunca é "azar". É o sinal mais forte de osteoporose, mesmo que a densitometria pareça razoável. E quando a fratura é recente, nos últimos dois anos, sobretudo de vértebra, quadril ou pelve, o risco de uma segunda fratura nos meses seguintes é muito maior. Esse período se chama risco iminente. Nele, a recomendação atual é começar logo, e começar pelo remédio mais potente, não pelo mais simples.
Os que freiam e os que constroem
Há duas famílias. Os antirreabsortivos freiam a retirada de osso: os bisfosfonatos, por comprimido ou pela veia uma vez ao ano (ácido zoledrônico), e o denosumabe, injeção sob a pele a cada seis meses. Os osteoformadores constroem osso novo: a teriparatida e a abaloparatida, injeções diárias por até dois anos, e o romosozumabe, injeção mensal por um ano, que não é usado em quem tem alto risco cardiovascular.
A ordem importa. Em quem tem risco muito alto, começa-se pelo osteoformador e, ao fim do ciclo, passa-se para um antirreabsortivo, que fixa o ganho. O caminho inverso rende menos osso. Uma página do site explica em detalhe como se trata a osteoporose e por quanto tempo.
Bisfosfonato: a única pausa possível
Os bisfosfonatos ficam guardados no osso e continuam agindo por anos depois de suspensos. Por isso são os únicos remédios de osteoporose que permitem uma pausa planejada, o chamado "drug holiday". Depois de cinco anos de comprimido ou três anos de ácido zoledrônico, quem atingiu a meta e não tem risco alto pode interromper, com densitometria e exames de sangue a cada um ou dois anos para decidir quando voltar.
A pausa não vale para todos. Quem teve fratura de vértebra, de quadril ou múltiplas, quem continua com T-score igual ou abaixo de -2,5 ou quem segue em alto risco não deve parar. Num estudo recente de vida real, 10% das pessoas de alto risco tiveram fratura no primeiro ano de pausa, contra menos de 1% das de baixo risco. Nesses casos o tratamento se estende a dez anos por via oral ou seis anos pela veia, e a reavaliação é anual.
Denosumabe: o remédio que não se interrompe
O denosumabe é diferente. Ele só funciona enquanto está no corpo. Quando o remédio é suspenso sem substituto, a retirada de osso dispara, a densidade ganha em anos se perde em meses e surgem fraturas de vértebra em cascata, às vezes várias ao mesmo tempo. Num estudo com quase 800 pessoas, uma em cada dez teve fratura vertebral nos 30 meses seguintes à interrupção, e quem recebeu bisfosfonato depois do denosumabe teve muito menos risco.
Por isso não se "para" o denosumabe: faz-se a transição. Quem usou por até cerca de dois anos e tem baixo risco pode passar para um bisfosfonato oral. Quem usou por mais tempo, ou tem risco alto, recebe ácido zoledrônico cerca de seis meses após a última dose, com exames de sangue para conferir se a remodelação óssea ficou controlada. O mesmo vale para os osteoformadores: quando a teriparatida ou o romosozumabe terminam, outro remédio entra no lugar, senão o ganho se desfaz.
O que isso muda na consulta
Mudou o jeito como eu respondo a "posso parar". Primeiro pergunto qual é o remédio. Se é bisfosfonato, olho se a meta foi atingida, se houve fratura e qual é o risco de agora: se tudo está favorável, planejo a pausa com data de reavaliação. Se é denosumabe, a resposta é sempre a mesma: não se interrompe, se faz a transição, e o calendário das doses vira prioridade, porque um atraso de meses já é perigoso. E mudou o começo: na mulher que chega com fratura recente de vértebra ou de quadril, não começo pelo remédio mais simples. Começo pelo que constrói osso, e depois fixo o ganho. Quando há fratura durante o tratamento, antes de trocar eu confiro se o remédio está sendo tomado do jeito certo, se há problema de absorção e se existe uma causa escondida, como vitamina D baixa ou corticoide. A densitometria deixou de ser um exame que eu "acompanho" e virou um alvo com número.
Perguntas frequentes
Melhorei a densitometria. Posso parar o remédio?
Se é um bisfosfonato, a meta foi atingida e não há fratura nem risco alto, uma pausa planejada é possível, com reavaliação a cada um ou dois anos. Se é denosumabe ou um osteoformador, não se para: troca-se por outro remédio que mantenha o ganho.
Atrasei a injeção de denosumabe. O que faço?
Poucas semanas de atraso se resolvem com a aplicação assim que possível. Meses de atraso exigem contato com o médico, porque o efeito de rebote começa por volta do sétimo mês depois da última dose. A regra é não deixar o intervalo descoberto.
A reposição hormonal da menopausa trata osteoporose?
O estrogênio protege o osso e reduz fraturas enquanto é usado, e é uma opção em mulheres no início da menopausa com sintomas, como explica a página sobre menopausa. Quando é retirado, o ganho ósseo se perde, como acontece com o denosumabe. Em quem já tem osteoporose estabelecida ou fratura, os remédios específicos para o osso são a base.
Fontes
- Cosman F, Lewiecki EM, Eastell R, et al. Goal-directed osteoporosis treatment: ASBMR/BHOF task force position statement 2024. Journal of Bone and Mineral Research, 2024.
- Tsourdi E, Zillikens MC, Meier C, et al. Fracture risk and management of discontinuation of denosumab therapy: a systematic review and position statement by ECTS. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2021.
- Burckhardt P, Faouzi M, Buclin T, Lamy O. Fractures after denosumab discontinuation: a retrospective study of 797 cases. Journal of Bone and Mineral Research, 2021.
- Adler RA, El-Hajj Fuleihan G, Bauer DC, et al. Managing osteoporosis in patients on long-term bisphosphonate treatment: report of a task force of the American Society for Bone and Mineral Research. Journal of Bone and Mineral Research, 2016.